2018, um ano de instabilidade |
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O ano que acaba de entrar, 2018, será um ano de instabilidade, de instabilidade social se os trabalhadores e o povo português decidirem deixar-se de ilusões e não embarcar mais na canção de embalar cantada pelo PS e pelos partidos que lhe dão apoio no Parlamento; de instabilidade política a nível de governação por parte dos partidos da direita institucional, desejosos de ir ao pote e que vêm a vitória em 2019 teimar em fugir; de instabilidade presidencial, o presidente monárquico, que segue uma agenda própria de candidato a Bonaparte, caso a situação o chame, não vê com bons olhos, como toda a direita trauliteira de que faz na realidade parte, um governo aparentemente de esquerda, com partidos da dita esquerda radical, para cúmulo, incluindo comunistas, a terem demasiado protagonismo, qualquer dia até quererão governar sozinhos. A estabilidade conseguida dia a dia pelo partido do governo e oferecida de bandeja pelos partidos que controlam o mundo sindical, e passe a hipocrisia presidencial, não é certa nem segura, porque nem a aparente recuperação da economia assente no turismo será por muito tempo e... nem o povo é de confiança. O princípio do ano é já marcado por despedimentos colectivos. Os trabalhadores da antiga fábrica de lingerie feminina Triumph permanecem diariamente à porta da fábrica, em defesa dos seus salários, já não receberam a última semana de Novembro, o mês de Dezembro e o subsídio de Natal, e para impedir a retirada de máquinas e materiais da empresa, que se encontra em processo de insolvência. A empresa suíça Têxtil Gramax que a adquiriu, ou fingiu adquirir, tem em mente deslocalizar para a Ásia, sem pagar salários nem indemnizações às 460 operárias e operários, tendo requerido a insolvência e que o tribunal de Loures rapidamente decretou. Uma fábrica que teve sempre lucros, são cerca de meio milhar de trabalhadores que irão para o desemprego, como se costuma dizer, com uma mão atrás e outra à frente. Irão ser brevemente acompanhados pelos 180 operárias e operários da conserveira Cofaco, dona da marca Bom Petisco, e que "é um rude golpe para a economia da ilha do Pico", segundo dizer do autarca laranja da Madalena, que se esquece de referir que o seu partido é em larga parte responsável pela falta de saídas de emprego local; a par do PS, diga-se de passagem, que detém o poder da governação do arquipélago e do poder central. Neste último despedimento colectivo a argumentação da empresa, que até tem recebido ajudas do estado, é a construção da nova fábrica que estará pronta daqui a dois anos. Prometem-se pagamento integral dos salários e das indemnizações, agora bem mais baratas, e uma hipotética contratação na nova fábrica, que já sabemos irá laborar só com trabalhadores contratados a prazo e salários ainda mais miseráveis. É o desemprego e a miséria. Por outro lado, a luta dos trabalhadores dos CTT contra os despedimentos, o encerramento de estações que irá potenciar esses despedimentos, a luta dos trabalhadores da Autoeuropa contra o trabalho à borla e as lutas dos professores e dos trabalhadores da Saúde, entre outras lutas mais localizadas, continuarão e não deixarão de marcar o ano de 2018. A estabilidade social assegurada pelas direcções sindicais e partidos da esquerda dita "responsável" está longe de garantida. Enquanto os trabalhadores são confrontados com o desemprego, a precariedade e os salários miseráveis, cada vez mais o valor do salário mínimo nacional se aproxima do valor do salário médio, (837 euros mensais brutos dos novos contratos permanentes no final do primeiro semestre de 2017), o que representa uma desvalorização dos rendimentos do trabalho, as benesses para o grande capital não param de se suceder. Enquanto a parte dos salários e ordenados no PIB diminuiu de 36,8% para 34,1%, a parte do Excedente Bruto de Exploração, que reverte para os patrões, subiu de 41,3% para 43%", em 2016, ano em que os perdões fiscais às grandes empresas, aliás, na continuidade dos anos anteriores, chegaram aos 2,4 mil milhões de euros, a que se juntam os 125 milhões de euros que o governo PS/Costa desistiu de cobrar à Brisa em IRC pela venda da brasileira CCR, tendo anulado a inspecção que lhe deu origem, e agora não parece querer obrigar a EDP a pagar os cerca de 69 milhões de euros referentes a contribuição extraordinária sobre o sector energético, já depois de ter beneficiado de um perdão fiscal de 38 milhões de euros. De igual modo a Galp e a REN têm contestado a cobrança de impostos a que estão obrigadas nos tribunais, pondo em causa a sua legalidade, uma situação bem diversa da do simples cidadão contribuinte que paga e não bufa, caso contrário vê de imediato o salário penhorado ou a casa colocada à venda. O governo PS/Costa, à semelhança do anterior, tem dois pesos e duas medidas quanto a taxar e a cobrar os impostos devidos caso se trate dos ditos grandes contribuintes ou dos pequenos. A mesma política se trata em relação aos bancos. O Fundo de Resolução (FR) dá como perdidos os 4,9 mil milhões de euros injectados no Novo Banco, decisão do anterior governo e confirmada pelo actual, já que o ministro Centeno alertou para a possibilidade do estado ter que enfiar ali mais dinheiro, através do FR, considerada pelo governo a única forma de se ter conseguido vender o banco, venda feita a um fundo abutre cujo objectivo é arrecadar grosso lucro, em tempo breve e garantido. É para isto que o governo "socialista" serve, garantir que o grande capital, nomeadamente estrangeiro e predador, possa prosseguir a sua lógica imparável de acumulação. Sempre e sempre à custa do sangue e suor do povo português, deve-se dizer. Alega-se que não há alternativa, são as regras da UE. Os bancos e os banqueiros foram recapitalizados com dinheiros públicos, os trabalhadores foram para o desemprego: no final de 2010, antes da chegada da troika a Portugal, a banca empregava 56 844 funcionários, desde aí e até Junho de 2017, mais de dez mil bancários ficaram sem emprego ou entraram na reforma antecipada, segundo dados da Associação Portuguesa de Bancos (APB). Em termos de balcões, dos 6240 que existiam, mais de 2500 foram encerrados, é a concentração da banca, quase metade nas mãos de capital espanhol. A situação da banca não é ainda estável, uma das grandes preocupações do PR Marcelo, apesar do aumento colossal das comissões cobradas pelos bancos aos cidadãos que são obrigados a recorrer aos serviços destes centros de agiotagem. Só os cinco maiores bancos nacionais (BPI, BCP, CGD, Novo Banco e Santander) aumentaram-nas em 45% em dez anos (o valor médio cobrado pelo pagamento da prestação da casa aumentou 47% em cinco anos). Estes cinco principais bancos arrecadaram em 2016, só em comissões, cerca de 1954 milhões de euros, ou seja, 5,3 milhões de euros por dia. A cobrança de comissões por tudo e por nada, um simples levantamento de dinheiro ao balcão é actualmente cobrado, está a generalizar-se, e nos primeiros noves meses do ano passado, as receitas atingiram mais de 1,6 mil milhões de euros líquidos, mais 90 milhões do que em igual período do ano anterior. É o fartar vilanagem. É o roubar a tripa forra, com o benevolente beneplácito do governo PS/Costa, que não está disposto a pôr cobro ao desaforo apesar dos protestos dos cidadãos e das organizações de defesa do consumidor. Enquanto o saque se faz, a corrupção vai de vento em popa, mostrando que é endémica e inerente ao capitalismo. Os homens de mão ao serviço do grande capital não passam de corruptos, que tudo fazem a troco de dinheiro, de comissões colocadas directamente em paraísos fiscais e/ou empregos principescamente pagos nas empresas a quem facilitaram ou intermediaram os negócios com o estado, envolvendo sempre o esbulho de bens e dinheiros públicos, estando as privatizações envolvidas por grossos esquemas de corrupção. O famigerado Sérgio Monteiro, a quem O Banco de Portugal encarregou a venda do Novo Banco à Lone Star por 460 mil euros, fora as comissões desconhecidas, foi agora convidado para presidente do Caixa BI, o banco de investimento do grupo CGD. A par do figurão, Luís Amado, destacado boy socialista, vai substituir outro famigerado tachista Eduardo Catroga, boy de Pedro Passos Coelho e do PSD, que se encheu durante este tempo com 40 mil euros mensais, na administração da EDP; viveiro de outros tais como Braga de Macedo, Celeste Cardona ou Ilídio Pinho. Arnaut, que foi ministro nos governos de Durão Barroso e de Santana Lopes, é o novo "chairman" da ANA, cuja entrega à francesa Vinci foi assessorada pelo escritório de advogados de que é sócio, o homem que já passou, ou ainda lá se encontra, pela Goldman Sachs, que ficou com 5% dos CTT, REN e empresas dos grupos Unicer e Siemens. E há os tais gestores de topo, que também foram ministros como António Mexia que se mantém como presidente da comissão executiva da EDP, detida maioritariamente pelo capital estrangeiro, China Three Gorges, Oppidum Capital, Senfora, BCP e Sonatrach, recebendo anualmente mais de 2 milhões de euros, entre vencimento e prémios. Entretanto o povo paga uma das electricidades mais caras da UE e que acaba de ser aumentada em 2%. Costa que devia acabar com o IVA de 23% e impor a redução do preço da electricidade, claudica e coloca-se a quatro patas, e os partidos parceiros em vez de exigirem a nacionalização da empresa, como contrapartida do apoio, mais não são do que uns meros e reles capachos. Enquanto pratica o saque sobre o povo, disfarçando com a devolução de algumas migalhas do que foi roubado pelo governo do PSD/CDS, e continua a encher os bolsos dos grandes capitalistas e banqueiros, o desprezo pelo bem-estar e segurança de quem trabalha é manifesto: 509 mortos em acidentes na estrada e 115 mortos em acidentes de trabalho, em 2017. Às famílias destas vítimas o beijoqueiro-mor do reino não apareceu para as selfies e para o boneco das televisões, nem o governo apresentou planos concretos e viáveis para a minimização da mortandade. Esta, entre outras, é a forma encontrada pela burguesia de condenar à pena de morte sem direito a recurso quem trabalha e produz a riqueza no país. Achamos como a maneira mais estúpida de morrer é encontrar a morte quando se trabalha para o patrão explorador. Mas enquanto a desgraça não vem com mais fogos florestais e correlativas mortes, a burguesia, perante o olhar condescendente e por vezes conivente do PR/rei, mais propriamente, a parte mais reaccionária e trauliteira da elite vai arranjando uns factos políticos, umas quezílias e umas tantas intrigas a fim de enfraquecer e desmoralizar o governo do PS e do Costa: os bilhetes do Centeno para ir ver o Benfica, um “brinde” para compensar o perdão do IMI para os filhos do milionário presidente do clube, como se os detentores de cargos públicos alguma vez fossem misturar-se com a turba, segundo a direita; a PGR que deve ter mandato vitalício, segundo a mesma direita trauliteira, já que tem feito os fretes quanto ao arquivamento do caso dos submarinos e da Tecnoforma, enquanto os casos Miguel Macedo/Vistos Gold e Ricardo Salgado vão ficando em banho-maria para possível prescrição. E outros factos políticos irão surgir ao longo do ano de 2018 – será a guerrilha, que aumentará após a sucessão do Coelho. Entretanto os partidos sustentáculos do governo PS/Costa irão de vitória em vitória até à derrota final. O BE continuará a chorar baba e ranho pelas "traições" do PS, são as rendas excessivas das eléctricas, o SNS, que continua a ser desmantelado paulatinamente, apesar das intervenções bem intencionada do considerado "pai" da dita criança, ou dos contratos precários, que sob o PS jamais acabarão, e o PCP que irá dar uma de "esquerda", enchendo a boca de um paleio bacoco e hipócrita, na Saúde, no Ensino e entre os operários, é ver Jerónimo junto das operárias da Triumph com uma mão cheia de coisa nenhuma, ou na Autoeuropa com a conciliação em relação aos planos do grande capital alemão, os trabalhadores devem oferecer voluntariado para trabalhar aos sábados, ou com a "produção nacional", que não é tida devidamente em conta, usando cada vez mais uma linguagem que nada tem a ver com um partido defensor da sociedade comunista e que nem social-democrata chega a ser. Um cartaz que diz “salários — emprego — produção — soberania” vale por um programa inteiro, o mais puro oportunismo, em termos políticos e ideológicos. Do lado da esquerda, ou do que se entende por tal, a instabilidade, a verdadeira instabilidade para o governo virá da luta operária e popular. O oportunismo trará instabilidade para o BE e o PCP, para além de fracos resultados eleitorais, que por sua vez se irá reflectir no governo apelidado pela direita de geringonça, sem aspas. Mas, pelo que se vê dentro do PSD, o partido por excelência da burguesia nacional, a instabilidade é geral. | |||||
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Os Bárbaros 11 de Janeiro 2018 |
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