| 2019, o Orçamento, a Campanha & Companhia |
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Estamos em plena campanha eleitoral. Costa desdobra-se em entrevistas e faz o seu jogo, “o dinheiro é pouco”, dá para reposicionar os funcionários públicos em mais um escalão, não dá para subida dos salários, já que é necessário contratar mais trabalhadores para o estado e, subentende-se, continuar a combater o desemprego, deixando assim os partidos do apoio parlamentar a nadar em seco. O BE ficou sem palavras e o PCP enfiou os pés pelas mãos, misturando aumentos salariais com ajudas à banca; e, entre eles, digladiam-se a fim de se saber quem foi afinal o autor da revindicação das 35 horas semanais, consigna que, na prática, tem ficado meramente nas palavras. E, mais ainda, o presidente-rei veio a terreiro, coisa corriqueira, avisar que haverá eleições antecipadas se o Orçamento de Estado de 2019 não for aprovado. O nosso primeiro-Costa segue a mesma linha, se houver chumbo do OE e eleições antecipadas, o ónus ficará para os autores da situação de crise. A dita “esquerda parlamentar”, encontrando-se entalada, lá vai dando uma de esquerda com a convocação de umas greves que acabam antes de começar, como bem ficou patente na greve dos trabalhadores da saúde que foi adiada lá para Junho e dos trabalhadores do Metro de Lisboa que, mal tendo sido agendada, foi suspensa na sequência de “uma reunião com a tutela”, sem nada se ter obtido de concreto; estão em causa a contratação de mais trabalhadores (coisa que o Costa até parece defender para a administração pública, parece!) e aumentos salariais, e aqui é que estará o problema, é que aumentando os funcionários públicos, Costa dá sinal claro para o aumento geral dos salários no sector privado, assunto que não está no contrato que se estabeleceu para a formação deste governo minoritário e que ainda não inspira confiança suficiente à nossa burguesia e aos mandantes de Bruxelas. Costa ufana-se de ter “reposto” os salários, por eliminação da sobretaxa do IRS, e o horário das 35 horas, e ter descongelado as carreiras em suaves prestações de molde a apanhar a data das eleições legislativas e, desse modo, garantir mais uns milhares de votos, contrapondo que se fosse o PSD, nada disto teria acontecido e que os cortes quer nos salários quer nas reformas seriam para continuar. O homem joga os seus trunfos, contando com a vitória fácil e – por que não? – com a maioria absoluta, já que o PSD com a sua nova direcção não apresenta alternativas de fundo. Nos próximos tempos, e segundo a previsão no Programa de Estabilidade, são garantidos para os trabalhadores da administração pública 350 milhões de euros – é o rebuçado eleitoral. O Costa do PS, contudo, não diz, que a partir de 2020, com o fim da compra de dívida pública pelo BCE aos bancos privados, o que tem sido uma excelente fonte de receitas para os ditos, e pelo arrefecimento da economia capitalista, que já se está a começar a sentir, depressa se voltará à austeridade pura e dura. E regressará o discurso oficial de Bruxelas, tal como está a acontecer no vizinho estado espanhol, de que o défice das contas públicas existente é devido aos “elevados salários” e ao “gasto excessivo” com a Saúde, a Educação e a Segurança Social. E, atenção!, Costa já referiu que a austeridade ainda não acabou. E os “opositores” são compreensivos, Rio não exige a demissão do governo, a propósito da má prestação do titular da pasta da Saúde, não estará nos seus princípios, diz o homem, e o BE e PCP, apesar dos arrotos reivindicativos, vão respeitando a paz social. Costa faz peito, agora até vai criar uma autoridade (mais uma!) para a “violência no futebol”, como se não fosse ele o principal responsável pela situação a que chegou o negócio das máfias do futebol, que se comportam como estado dentro de estado, mas verdadeiramente o homem não passa de um cobardolas que renegou a solidariedade partidária, tenta livrar-se da assombração socrática, para aparecer de mãos limpas perante o eleitorado em Outubro de 2019, querendo apagar o facto de que todas as medidas anti-populares tomadas pelo governo de Sócrates e de que todas as embrulhadas em que o seu chefe se envolveu também são da sua responsabilidade, já que o governo era do seu partido, o PS, e ele era o número dois. Costa e restante direcção socialista são gente, sem honra nem dignidade políticas, em quem ninguém pode confiar, nem os próprios correligionários. Gente pouco recomendável, daí as nossas elites e o directório Bruxelas/Berlim lhes confiarem a governação do país apenas por falta de melhor no momento. Costa irá, no segundo mandato, à semelhança do que acontecerá com o fascista Marcelo reciclado em democrata-dos-afectos, revelar na realidade o que o move. Enquanto a generalidade dos trabalhadores vê os seus rendimentos nominais praticamente inalterados, em comparação com a altura do início da crise, mas substancialmente diminuídos em termos de poder aquisitivo, os executivos das grandes empresas, alguns dos quais também acionistas de referência, viram os seus rendimentos salariais aumentados em 43% nos últimos três anos, se nessa altura a diferença em relação à média dos trabalhadores era de 33 vezes, agora é de 46 vezes; ou seja, enquanto os presidentes executivos das empresas do PSI 20 levaram para casa quase 16 milhões de euros no ano passado, mais 4,6 milhões que em 2014, cada um ganhou 996 mil euros brutos, os trabalhadores levaram 21,7 mil euros em média, praticamente o mesmo valor do que em 2014. Esta situação é mais desigual no sector do comércio, por exemplo, no grupo Jerónimo Martins, dono do Pingo Doce, o presidente ganha mais de 155 vezes os 13 mil euros que cada trabalhador aufere em média. Os lucros acumulados destas empresas aumentaram no período considerado 50%, e é para garantir esta acumulação de capital que o Costa e o Marcelo se multiplicam em incansáveis malabarismos. Enquanto os trabalhadores assalariados auferem uma média de 846 euros brutos, sendo Portugal o país da UE em que o salário médio se encontra mais próximo do salário mínimo, os digníssimos “representantes da nação” metem ao bolso cerca de 5.614,55 euros líquidos (mais de 2 mil euros só em alcavalas), embora este não seja o salário médio dos ditos é auferido por mais de metade. E mais de metade dos deputados falsifica a morada a fim de receber ajudas de custas a quintuplicar, fica-se na dúvida em se saber quem é mais trafulha: se os ministros e adjuntos ou os deputados? Depois não se venham queixar de populismos e da degenerescência do regime, porque a dita "Assembleia da República" é um antro de corrupção. A corrupção, que é designada pelo nome próprio quando se trata de se desacreditar governantes ou ex-governantes da dita esquerda do regime, no caso presente, o PS, mas que é sempre referida de “empreendedorismo” quando se trata de partidos e de políticos da direita formal e tradicional, atravessa todo o regime e todo o campo de actividade capitalista. É na economia, é no estado, é nas polícias, é na justiça, é no futebol, é em todo o lado, pela simples razão de que faz parte da essência do capitalismo. E em relação a esta questão não há volta a dar, venham lá os reformadores e moralistas do regime, PCP's, BE´s ou PS's de esquerda, como aquele ex-ministro PS que foi para o Banco Europeu de Investimento depois de ter feito as SCUT´s, as tais auto-estradas que se pagavam a elas próprias, exactamente o banco que mais investiu e mais rendimentos tirou de umas estradas que estão às moscas na maior parte do tempo, pagando o estado, ou seja, os nossos dinheiros, uma renda quase vitalícia sobre dezoito mil milhões de euros por um património que foi avaliado pelo Eurostat em apenas 5,5 mil milhões de euros. O alívio manifestado recentemente pelo presidente Marcelo porque a justiça portuguesa deixou de ser incómoda para um dos dirigentes mais corruptos da cleptocracia angolana diz tudo sobre a nossa elite política (e sobre o próprio) e quanto a este regime, cuja principal base de existência é a exploração de quem trabalha... e a corrupção. O aumento da corrupção e a dificuldade crescente de a iludir constituem sinais evidentes da decomposição da democracia parlamentar burguesa saída do golpe militar de 25 de Abril. |
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Os Bárbaros 17 de Maio 2018 |
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