Em Abril, águas mil... |
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Nos últimos dias, o dito espaço mediático tem sido inundado com questões futebolísticas, uma forma hábil embora gasta de entreter o reviralho, enquanto o governo vai navegando em modo Bruxelas/UE, ou seja, vai aplicando uma austeridade branda, indolor, com o povo anestesiado com as ligeiras reversões do que lhe foi retirado em plena época de troika/governo pafioso. Os trabalhadores terão visto os seus rendimentos acrescidos cerca de 3%, valor nominal, entre 2016 e 2017, mantendo-se o custo da mão-de-obra em Portugal ainda abaixo da média europeia. A título de referência, deve-se salientar que entre 2008, início da crise, e 2013 foram retirados 3,6 mil milhões de euros aos salários e entregues 2,6 mil milhões ao Capital. A dívida pública subiu para os 246 mil milhões de euros em Fevereiro, mais 2,4 mil milhões do que em Janeiro, embora em termos relativos tenha estado em queda por força do aumento (anémico) do PIB. Uma dívida que o povo não deve pagar porque não é nem foi contraída para seu benefício. Esta política de austeridade está bem patente na previsão do défice das contas públicas deste ano que se prevê que fique nos 0,7%, bem abaixo dos 1,1% previsto inicialmente, aquando do apoio do BE e do PCP ao Orçamento de Estado de 2018. Esta obsessão pelo défice, e imposta por Bruxelas/Alemanha, tem tramado os partidos da coligação parlamentar que não sabem como descalçar a bota: ser ao mesmo tempo apoio e oposição e sem penalização em termos eleitorais. É que a campanha eleitoral já começou. São várias as obsessões do governo PS/Costa: é o defice, Centeno vai se assumindo já mais como funcionário de Bruxelas/Eurogrupo do que ministro português das Finanças (veja-se o caso da pediatria do Hospital de S. João, que a direita tem explorado até mais não); é a dívida pública, embora o governo diga o contrário, que é para manter sem que o povo se revolta contra o seu pagamento e simultaneamente garantir a confiança dos tais investidores estrangeiros que porfiam em esfolar o boi duas vezes; é salvar a banca, com mais injecção de dinheiros públicos de forma directa, Banco Novo, ou indirecta, Montepio, o que faz ascender a conta global nestes anos de austeridade em 17,1 mil milhões (desde 2007), quase 9% do PIB a preços actuais. Em relação ao banco do estado, CGD, os créditos mal parados são varridos para os bolsos do contribuinte não se investigando quem e como os enfiou na carteira e não se exigindo a sua devolução. É a impunidade descarada no malbaratar dos dinheiros públicos, ao mesmo tempo regateia-se meia dúzia de milhões de euros para a Cultura, como se esta fosse quase uma chaga que se tem de suportar para calar a boca ao povo. Para a burguesia e os seus partidos do arco da governação, a cultura, o conhecimento, a ciência são um desperdício, o povo quer-se ignorante e pouco reivindicativo. A impunidade é geral, bem como a corrupção que é branqueada e fomentada pela complacência de um justiça que cada vez menos consegue disfarçar a sua natureza de classe. Ficando pelos casos que têm sido noticia ultimamente: a máfia dos colégios privados, reunindo gente sem escrúpulos tanto do PS como do PSD, enfiou nos bolsos 300 milhões de euros, dos quais 30 terão sido utilizados de forma indevida (aliás, todo esse dinheiro é indevido), que terão sido gastos em carros de luxo, viagens, prendas para a família e jantares a 800 euros por cabeça e vinhos de 100 euros a garrafa; Montenegro, ex-deputado e dirigente do PSD, pafioso convicto, obteve 10 contratos por ajuste directo das câmaras municipais de Espinho e Vagos, ambas lideradas pelo PSD, perfazendo um valor total de 400 mil euros, entre 2014 e 2018, através da sociedade de advogados de que é sócio em 50%. A câmara PS de Lisboa terá simulado uma sondagem ao mercado a fim de avalizar a contratação de um cacique do partido no valor de cerca de 100 mil euros. Quanto ao resultado da intervenção da dita justiça, estamos já conversados. A corrupção é endémica ao capitalismo e, na situação portuguesa, há muito que se tornou uma instituição nacional, atravessa todos os estratos superiores da sociedade e todos os órgãos do poder, bem como todas as actividades económicas. Onde houver mais poder e mais dinheiro e interesses, maior é corrupção e... a impunidade. O estado tem sido um meio de enriquecimento ilícito da nossa burguesia indígena. O estado é simultaneamente um instrumento para o saque e uma arma de repressão sobre os trabalhadores e o povo. O governo Costa/PS tem-se multiplicado por operações mediáticas, em franca e aberta campanha eleitoral, é a limpeza da floresta, é a entrega de kits de sobrevivência às populações das aldeias das regiões mais afectadas pelos incêndios, é a reconstrução das casas que arderam e a indemnização às famílias enlutadas, é a ronda pelo estrangeiro a angariar investidores para dinamizarem a economia nacional, é o descongelamento das carreiras dos trabalhadores da administração pública aos bochechos, ficando a última prestação para Dezembro de 2019, já depois das eleições, bem como o aumento dos salários que não acontecerá em 2019 mas só em 2020, para que um sector do povo vote no PS e este venha a ganhar as eleições com maioria absoluta. Manobra esta que nem a direita pafiosa terá arte e engenho para contrariar, assim como a putativa esquerda parlamentar, que anda com o governo ao colo à 2ª, 4ª e 6ª e nos outros dias o critica por querer ser bom aluno de Bruxelas e andar de braço dado com a direita reaccionária quando se trata de questões importantes para os trabalhadores, como seja a reversão das alterações ao Código do Trabalho. Esta dita esquerda não põe em causa a essência da política aplicada pelo governo sobre os trabalhadores portugueses, é a dívida pública, é o défice das contas do estado, é a “ajuda” aos bancos falidos (mas acionistas cada vez mais ricos), e é a manutenção daquilo que é considerado por muita gente como um verdadeiro assalto, ainda por cima anti-constitucional e por conseguinte ilegal, que são as denominadas parcerias público-privadas (PPP's). Estas PPP's, ditas nacionais, representam 10,8% do PIB, o maior valor da União Europeia, sendo a mais antiga, a mais ruinosa e a mais escandalosa, a Ponte 25 de Abril. São cinco vezes mais que a média europeia. São cerca de 20 mil milhões de euros que terão de ser pagos até 2042. Ao todo, são 43 parcerias. É obra! É fartar vilanagem! Os bancos, falidos ou não, estão sempre a ganhar. Quem foi responsável por estas vigarices, autêntico roubo dos dinheiros públicos foi bem recompensado. Quem esteve nas privatizações, todas envoltas na mais escandalosa e desavergonhada corrupção, foi bem remunerado. O melhor exemplo, Catroga, que na EDP chinesa já embolsou mais de 3 milhões de euros, irá ser premiado mais uma vez, com outro cargo na empresa do estado chinês e ainda tem a distinta lata de que não precisa para viver nem do salário nem da reforma, perto de 10 mil euros mensais – o fdp ainda goza com o povo! Assim se percebe como funciona o bloco central de interesses e de desgovernação e assim se entende a verdadeira natureza da corrupção no estado e na sociedade burguesas e capitalistas. E assim se compreende a dificuldade em se repor os rendimentos dos trabalhadores para os níveis anteriores a 2007. A notícia de que na PSP existem 16 sindicatos, que o total de 3680 dirigentes e delegados tiveram mais de 36 mil dias de folga só no ano de 2017, para além de visar uma possível pressão sobre este corpo policial a fim de o tornar mais dócil ou preparar o terreno para a limitação do direito à greve, revela que a corrupção existe no campo sindical. É com estas benesses que se tem criado uma elite burocrata sindical, pouco preocupada com a defesa dos interesses das classes que diz representar, mas mais com os seus privilégios, e pouco ousada em colocar em causa o establishment. Esta é uma das razões pelo que o Costa e o governo PS têm beneficiado da paz social, agora acenada como vantagem aos investidores estrangeiros. Esta pacificação e esta coexistência pacífica entre sindicatos em geral e o governo dos patrões e lídimo representante de Bruxelas ficou bem patente nos sorrisos de Mário Nogueira, dirigente sindical que já se terá esquecido do como é ser professor, e de Tiago Brandão Rodrigues, ministro que se tem limitado a prosseguir a política do antecessor Nuno Crato quanto ao Ensino, em recente evento público que foi a considerada “ magnífica” Cimeira Internacional sobre a Carreira Docente que decorreu em Lisboa. Nesta paz social, em Abril, águas mil... embora com pouco calor. Ah, é verdade! A dívida pública não deve ser paga pelo povo português, por ser odiosa, ilegítima e em grande medida ilegal. Esta deve continuar a ser a verdadeira consigna sempre e, em particular, nas próximas eleições legislativas de 2019. |
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| Os Bárbaros 12 de Abril 2018 |
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