O bloco central da gatunagem e da corrupção

 
 
Na rede
 

Com a nova direcção do PSD/PPD em funções, e sob o santo beneplácito do dito supremo magistrado da nação, o PS reconsidera publicamente a sua verdadeira natureza e vocação, mostrando-se aberto a "conversar" sobre dois temas de primordial importância para a burguesia nacional e correlativos grupos de interesses locais: descentralização e próximo quadro de fundos comunitários. São muitos milhões que têm de ser bem distribuídos pelas clientelas. E é muito mais forte o que os une do que aquilo que os possa separar ocasionalmente: o assalto ao pote. BE e PCP estão preocupados com a putativa deriva de direita do PS, e Jerónimo não se coíbe de afirmar coisa do género: "o PS é incapaz de se afirmar como partido de esquerda". O homem é tolo e não percebe nada de política ou então continua a bater na tecla da social-democracia, com melhorias no quadro do capitalismo e da democracia burguesa, os operários, talvez, num dia de são nunca à tarde, deixarão de ser explorados; ou seja, se não é tolo é burro reaccionário (claro que falamos em termos políticos e sem ofensa para os burros). O principal partido do capital em Portugal não quer apenas ser informado das decisões do governo, quer participar nelas; ora, isto poderá querer dizer que a aliança PS/BE/PCP pode estar por um fio, desfazer-se ainda antes de Outubro de 2019. Ao contrário do apregoado internamente e dos estudos de organismos internacionais, a paz social que se vive no país não passa de uma paz podre.

Se Portugal é considerado o terceiro país mais seguro do mundo, ele é simultaneamente visto como um país mais corrupto do que a média europeia, ou seja, de acordo com o Índice de Percepção da Corrupção, fica em 29.º lugar (com Nova Zelândia em 1.º e a Dinamarca em 2.º lugar), entre os 180 países e territórios avaliados. Mais precisamente, Portugal é visto como tendo administrações públicas das mais corruptas do mundo, o que significa que a classe política no poder é das mais corruptas e que a burguesia nacional enferma do mesmo grau de corrupção, numa relação dialéctica entre corruptores e corrompidos. Situação esta de elevada corrupção que é inerente ao capitalismo nacional, um capitalismo de tipo rentista, como se pode mais uma vez comprovar pela disputa pelo pote dos fundos comunitários. Corrupção que fica bem caracterizada pelo lapso de um autarca socialista, ex-candidato à presidência da República e que se passou com armas e bagagens do partido católico do táxi, e que se enganou na declaração de rendimentos, em vez de 6,5 milhões de euros registou apenas 5600 euros. São coisas que acontecem, tal é o hábito. Como já está a ser tradição a lavagem de dinheiro das máfias estrangeiras, não deixando de marcar pelo seu simbolismo a máfia angolana que lavou no país muitas centenas de milhões de euros, a par dos desfalques no BESA de mais de 600 milhões de euros. A corrupção para além de estar na massa do sangue do capitalismo também se globalizou.

As privatizações em Portugal, e em especial as levadas a cabo pelo anterior governo pafioso, todas elas foram envolvidas na maior das corrupções, englobando governantes, dirigentes políticos, escritórios de advogados, diversos intermediários, todos receberam as respectivas comissões. Empresas que foram vendidas a preço da uva mijona, que davam enormes lucros e iguais receitas para o estado: a EDP, a primeira do ranking, acaba de anunciar aumento dos lucros de 16%, para 1.113 milhões de euros, em 2017 (961 milhões de euros em 2016); mais de um terço destes dividendos são expatriados para a China; a outra empresa produtora de energia, e considerada estratégica para o país, a Galp Energia, fechou 2017 com um resultado líquido de 602 milhões de euros, um aumento de 25% face aos 483 milhões alcançados em 2016. Empresas que deram guarida a corruptos quando eram públicas, como recompensa pelos bons serviços como políticos do poder, e que continuam a desempenhar o mesmo papel enquanto privadas. O carácter do capitalismo não muda enquanto não mudar o estado que o suporta e protege.

A corrupção liga intimamente com os bancos. O governo PS/BE/PCP prepara-se para injectar mais 600 milhões de euros no Novo Banco (ex-BES, é bom não esquecer). Banco “Novo” só no nome, é resultante de um colapso financeiro que corresponderá, de forma directa e indirecta e a breve prazo, a uma diminuição de 14% do PIB. No entanto, o governo diz que não há dinheiro para a reposição dos trabalhadores da administração pública como deveria ser feita, caso não tivesse havido congerlamento. Calcula-se, mais concretamente, que até 2021 a falência do BES terá um impacto negativo na economia portuguesa de 25 mil milhões de euros. Ou seja, a economia encolhe 14%, e a actuação do governo PS/Costa, à semelhança do antecessor PSD/PP/Coelho/Portas, visa somente minimizar os danos, mas os danos nos bolsos dos acionistas e não dos portugueses, incluindo os cidadãos incautos que confiaram no principal banco privado nacional, bem acobertado, diga-se de passagem, pelo Banco de Portugal (cujo governador há muito deveria ter sido demitido e enfiado na prisão), pela múmia Silva de Boliqueime e pelo novel "professor catedrático" Coelho de Massamá. Os corruptos ficam sempre impunes neste país de ópera bufa, ou são recompensados nas empresas para as quais governaram enquanto políticos ou vão dar aulas para universidades públicas a convite de reitores da mesma cor política e também eles mergulhados no mesmo caldo cultural do nepotismo e da corrupção. Não é por acaso que se costuma ouvir dizer que a cunha é uma instituição nacional, o quer dizer que a corrupção é uma tradição na cultura das nossas elites e dura há séculos, corrompendo por vezes o próprio povo.

Os governos que gerem o estado burguês e capitalista, bem como este, são fortes e prepotentes sobre os fracos, os trabalhadores e o povo, mas são fracos e cobardes perante os mais fortes. A justiça do estado manda prender um cidadão que rouba 23,85 euros de chocolates, mas deixa em liberdade um ladrão que rouba o país em 25 mil milhões de euros. O governo PS prepara-se para multar os pequenos proprietários que não limparem o mato dos terrenos, mas não cobra os 13,5 milhões de dívida ao fisco ao grupo Cofina, proprietário de entre outras coisas do jornal "Correio da Manha" e da Celtejo, poluidora mor do principal rio português; empresa que há muito já devia ter fechado e nem sequer irá pagar, tudo aponta nesse sentido, os trabalhos de uma pseudo limpeza do rio que está a ser feita às custas do povo contribuinte. Um estado e um governo que adoram a vassalagem e o beija-mão não só à chancelarina como ao rei espanhol, consentido não só a existência de uma central nuclear em fim de vida junto à fronteira como agora a exploração de uma jazida de urânio a céu aberto a 40 Kms da nossa fronteira, que irá poluir um afluente do rio Douro, vindo o ministro do Ambiente, um pau mandado dos grupos económicos, dizer que o estado espanhol tem todo o direito de explorar as minas que bem entender. Lacaios piores do que estes será um pouco difícil de encontrar.

Portugal, como já é habitual, quase uma tradição, é acusado pelo Conselho da Europa de tratamentos desumanos nas prisões e de violência e tortura exercidos pelas polícias nas esquadras. Conselho da Europa arrasa polícias e prisões, exigindo ao Governo que feche quatro alas do Estabelecimento Prisional de Lisboa e o hospital psiquiátrico da prisão de Santa Cruz do Bispo. É mais do que negro o retrato traçado pelo Comité para a Prevenção da Tortura e Tratamentos Desumanos quanto às prisões portuguesas, cujo relatório foi enviado recentemente ao governo. Ficamos à espera da resposta em termos de medidas práticas por parte de um governo considerado de esquerda por muita boa gente. O estado não reprime o roubo e a corrupção, nem mete na prisão os corruptos e os ladrões do erário público, caso o fizesse era muito provável que os partidos do bloco central dos interesses e da gatunagem tivessem dificuldade em formar governo, não haveria candidatos, mas usa o cacete sobre o preto, o imigrante, todo aquele que é diferente, e sobre o trabalhador quando ousa manifestar a sua revolta. O estado não é neutro, não está acima das classes, é um órgão de classe, é a administração dos negócios da burguesia e da repressão sobre quem ousa levantar-se contra ela. Ou resumindo: Capitalismo = roubo + corrupção + violência de estado.



Os Bárbaros
05 de Março 2018