Campanha permanente (2018/2019)

 
 
 
 

Os partidos da lei e da ordem encontram-se desde há muito, ainda antes do início de 2018, em permanente campanha eleitoral, facto que terá suscitado alguma crítica ao PR Marcelo que, diga-se de passagem, ainda antes de ser eleito já estava em plena campanha, logo que foi promovido a comentador político permanente no ecrã televisivo. Ao contrário do que é afirmado pelo governo Costa/PS, aliás, na continuidade de Coelho/PSD/CDS/PP, a austeridade não foi ultrapassada, ela continua, está de boa saúde, e um dia destes o irá mostrar à evidência. E, então sem subterfúgios, haverá exploração e miséria redobrados para o povo português, daí a preocupação de se manter este estado de engano e de mentiras. As eleições no estado burguês servem para conter a contestação social. E o PS ainda tem sido o melhor instrumento para o efeito. Pelo menos, até agora.

É neste sentido que o presidente/rei se dirigiu à Nação apelando à contenção dos trabalhadores que têm estado em luta de molde a “respeitarem sempre os outros”, não exactamente a parte do povo que ainda não luta e que poderia discordar ou sentir-se lesado (por exemplo, pela greve dos enfermeiros ou dos professores), mas mais propriamente a não perturbarem a tão amada paz social. Amada, mas pelas elites que não desejam uma “país dividido”, como está a acontecer em França, a fim de manterem o sistema de exploração, o capitalismo. Não será exactamente o amor pela “democracia que muito custou a pôr de pé” ou a indignação pela “condenação de um de cada cinco portugueses à pobreza e à fatalidade de termos Portugais a ritmos diferentes”, que faz mover o único chefe de estado de um país da União Europeia que foi assistir à tomada de posse do Salazar brasileiro, abraçando-o como “irmão”, mas o medo de que a grande maioria do povo eleitor vote “errado” nas próximas eleições; ou seja, medo de alguma alternativa mais revolucionária ou simplesmente o virar de costas a actos que não têm alterado a sua situação de miséria e de crescente horizonte desigual.

É com a mesma cantilena de sereia de apaziguamento social que o cardeal patriarca de Lisboa interveio na sua habitual homilia de início de ano, sublinhando o pedido feito pelo papa Francisco para que haja mais participação cívica para “melhorar as coisas”. “Façamos paz!”, é a palavra de ordem da hipocrisia da sacristia católica e do monárquico que foi eleito presidente da laica República de Portugal. No entanto, houve alguém que não se conseguiu conter nas palavras seráficas do cardeal e falou com o coração a sair-lhe pela boca, pedindo uma “cidadania atenta, activa e criativa” para não deixar a política em “mãos sujas”, porque se, no ano que findou, “saímos do lixo financeiro... tomámos consciência de que continuámos a atolar-nos no lixo da corrupção” e, indo mais longe, “também está nas nossas mãos e nas nossas decisões uma mudança séria e a sério”. Foi o bispo auxiliar de Braga, Nuno Almeida, não deixando por mãos alheias o apelo à extrema-direita, no bom estilo do fundamentalismo da ICAR: venha um Bolsonaro português!

Entre o apelo à paz social dentro do pântano da democracia burguesa e o chamamento ao fascismo, o Costa e o PS lá vão andando, serpenteando entre os pingos da sentida e mais que justa contestação social, independentemente da manipulação tentada por terceiros, em direcção à vitória nas eleições legislativas de Outubro e, pela lógica, para o Parlamento Europeu e, com alguma sorte, das regionais da Madeira. Costa jamais obterá maioria absoluta, não pelos incêndios de 2017, não pelo furto do material de Tancos, não pelo colapso da estrada de Borba, não pela queda do helicóptero do INEM, mas “somente” pela não contagem do tempo dos professores, pelo desprezo pelos enfermeiros, pelo ataque aos trabalhadores da administração pública em geral, que continuam a auferir menos 20% do que auferiam há 10 anos e que deveriam progredir nas carreiras com contagem de todo o tempo em que viram os seus rendimentos a andar para trás. Pela continuada diminuição dos rendimentos, em termos reais, de todos os trabalhadores assalariados e dos pensionistas, realidade escamoteado pelo discurso de triunfalismo enganoso – até ao fim de 2017 havia já 950 mil trabalhadores precários e as mulheres ganham em média menos 226 euros do que os homens.

O Costa defende os ricos e os poderosos e ajoelha-se perante eles. Em vez de aprovar um aumento geral de salários para o sector privado, pelo respeito pela contratação colectiva e pela revogação das alterações ao Código do Trabalho, feitas a pretexto da crise e da intervenção da Troika, o Costa e o PS vêm pedinchar aos ditos empresários para “recrutarem e valorizarem a carreira dos seus quadros” a fim de tornarem as empresas “competitivas”. Em vez de acabar com a precariedade, dando o exemplo dentro da administração pública, ainda a fomenta, fica pelo pedido aos patrões como se estes fossem alguma instituição de caridade. Em vez de fazer pungentes declarações de intenção numa hipotética e salvífica política de "equilíbrio" para a pretensa eliminação do défice e de redução da dívida (a primeira imposta como exigência e a segunda fomentada por Bruxelas, tendo aumentado para os 251,48 mil milhões de euros em Novembro). Continuando na União Europeia, não haverá qualquer hipótese de desenvolvimento económico, mesmo do ponto de vista capitalista. O euro, que acaba de fazer 20 anos em que foi criado, ou melhor, a outra denominação do marco alemão, é o principal instrumento do empobrecimento do povo português e de enriquecimento da burguesia alemã e, em menor grau, de uma parte da burguesia indígena. Não há outra saída para o povo português se não a saída da União Europeia e o repúdio da dívida pública ilegítima e odiosa.

O presidente/rei vela pela boa governação por parte do PS/Costa do bom andamento dos negócios feitos pelos nossos empresários, vai a todas, terá sido o PR com mais milhas nas pernas atendendo ao tempo de reinado. Vela pela segurança de todos (os negócios) e está constantemente a chamar a atenção pelas “falhas” do estado, como ele não fizesse parte do dito, e não tivesse um passado político não muito abonatório, quando agora pede aos futuros candidatos nas próximas eleições que façam uma séria análise do seu curriculum pessoal. O estado “falha” porque agora interessa propalar a “falha” do estado, já que se encontra no governo uma “esquerda” indesejada pela direita e pela extrema-direita, dando jeito diabolizar o Costa e o PS por tudo o que de mal acontece ou venha ainda acontecer e que se possa responsabilizar o estado directa ou indirectamente.

A floresta arde, os paióis do exército são assaltados, os helicópteros caem e as estradas colapsam, segundo a opinião da direita e de uma certa esquerda, não devido à ganância dos tais empresários da indústria da celulose ou dos madeireiros e de outros negociantes do incêndio florestal, mas porque o estado falha. Ora, os helicópteros do INEM caem, assim como os incêndios não são devidamente combatidos, exactamente por esses meios e essas tarefas terem sido entregues aos privados; as estradas colapsam por razão da ganância dos proprietários das pedreiras que não respeitam as leis, compram os presidentes das câmaras e corrompem os dirigentes dos organismos públicos que deviam fiscalizá-los. Não apenas pelo facto do PS ser um mau governo. As falhas existem e continuarão a existir enquanto o capitalismo se mantiver em Portugal, agravadas por uma situação de crise crónica do capitalismo, porque se não há dinheiro suficiente para investir em infra-estruturas ou melhorar os serviços públicos é por mal chegar para a recapitalização dos capitalistas a fim de assegurar os seus infindáveis lucros. O governo do PS é mau porque é um governo da burguesia, cuja missão principal é gerir-lhes os negócios. Não pelo facto do Costa ser feio e monhé.

E para manter o capitalismo e a subjugação do povo trabalhador, o governo, o presidente beato e a igreja juntam-se em santa-aliança. Cada um deles fará tudo para obter dos outros favores e benesses num comércio que de católico terá bem pouco. A ministra da justiça apresentou ao PR Marcelo a proposta de indulto do padre condenado a pena de 2 anos e 9 meses de prisão por seis crimes de maus-tratos a jovens e por meter a mão em dinheiro alheio. Assim, e também por cunha dos ex-PR's Eanes, Sampaio e Cavaco, o padre António Baptista, antigo director da Casa do Calvário de Beire, que integra a Obra de Rua criada pelo Padre Américo, foi um dos cinco condenados que recebeu um indulto do PR Marcelo nesta época de Natal. Claro que, em tempo de eleições, ter o apoio da Igreja, seja para eleições para o Parlamento seja para a Presidência da República, fará sempre algum jeito. Favores com favores se pagam

O Marcelo, sobrinho do outro Marcelo, que fugiu à tropa por ser de família da elite fascista e muito menos foi à guerra em África que, dizia-se na altura, era para defender a pátria, e agora até é o chefe supremo das Foras Armadas, quando fala que é inadmissível o estado falhar e tenta imiscuir-se na actividade do governo ou da Assembleia da República (órgão máximo da democracia representativa que ele tanto preza, nem seria preciso ouvir o discurso já referido), como aconteceu há pouco tempo em relação à Lei de Bases do Serviço Nacional de Saúde (lei contra a qual votou aquando deputado do PSD) defendendo abertamente a entrada dos privados num dito “Sistema” Nacional de Saúde, deveria ser o primeiro a apresentar a sua demissão, ainda antes de qualquer ministro ou do próprio governo. Em vez da demissão, Marcelo é quem mais campanha eleitoral faz, embora vá a votos só daqui a dois anos. Marcelo pode juntar-se ao Costa como um dos dois maiores sacripantas e falsários da República.



Os Bárbaros
03 de Janeiro 2019