Coletes amarelos, a coisa pega-se...

 
 
 
 

A burguesia indígena está assustada e pela voz de um dos seus principais órgãos de propaganda dá o alarme: “Greves não param. Há 47 pré-avisos até final do ano!”. Está apavorada, melhor dizendo, porque está de olhos fixos no que se passa em França com os coletes amarelos. São os professores, são os enfermeiros, são os técnicos de diagnóstico, são os trabalhadores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, são os trabalhadores da Inspecção das Pescas, são os trabalhadores do Metro do Porto, a primeira greve em 16 anos, desde quando o Metro começou a funcionar, com as estações vazias e autocarros cheios, uma coisa nunca vista na cidade do Porto, são os estivadores que fizeram parar um dos principais portos do país e a principal empresa exportadora (greve de precários que se saldou por uma vitória mas que a imprensa corporativa quer apresentar como “meia-vitória”), são os funcionários judiciais, são os guardas prisionais, são os trabalhadores no hospital privado da Cruz Vermelha, são os bombeiros, etc..

A tão famigerada paz social parece fugir ao controlo do governo PS/Costa e dos sindicatos da ordem. A direita regozija com a greve dos enfermeiros às cirurgias nos cinco principais hospitais públicos e com a greve dos bombeiros voluntários, e avança que um país em que há contestação social, onde os coletes amarelos saem à rua, é porque é “mal governado” e... para o próximo dia 21 estão previstas manifestações em diversos pontos do país, convocadas por uns anónimos “coletes amarelos” portugueses. Contudo, observando melhor, nem o número de greves e de convocatórias para os próximos dias é superior ao dos outros anos, este ano o número andará por pouco mais de meio milhar (sem contar Novembro de Dezembro), enquanto que em 2017 terão sido umas 613, e ainda longe do número de 2015 (811 greves), último ano da governação PSD/CDS/PP, ou das 1895 em 2012, só que agora o controlo poderá fugir, como aconteceu com a greve dos trabalhadores precários do Porto de Setúbal. Entre o alarido e o temor, uma coisa é certa, a nossa burguesia não está descansada porque sabe que o que se passa lá fora mais cedo ou mais tarde virá a ocorrer cá em Portugal.

E se tarda uma maré de contestação social do género dos coletes amarelos em França será porque o governo PS/Costa beneficia do apoio do BE e do PCP, que têm servido de almofadas protectoras e têm ajudado na compra da paz social. Porque razões não faltam para que o povo português, nos seus diversos estratos sociais, desde os operários aos trabalhadores dos serviços, passando pelos pequenos patrões da indústria e do comércio, desde os funcionários públicos aos trabalhadores do sector privado, desde os estudantes aos reformados, se revolte. E se revolte de forma impetuosa, tudo será uma questão de tempo e de oportunidade e bastará então uma pequena faúlha para incendiar a pradaria. Apesar da eventual manipulação das greves por quem as convocou, umas pela CGTP/PCP, para mostrar que não está feito com o governo, ou pela UGT/PSD para fazer mossa ao governo, elas acontecem porque os trabalhadores, sejam enfermeiros (cuja greve é agora diabolizada e está a servir de pretexto para uma possível requisição civil ou para, em tempo próximo, uma desejada proibição da greve no sector do estado) ou trabalhadores do Metro do Porto, vêm o seu de poder de compra e as suas condições de vida a degradarem-se continuamente desde há mais de 10 anos. O empobrecimento e a miséria têm sido uma constante e são eles factores que despoletam a revolta, mesmo que forças de extrema-direita e populistas tentem pescar nas águas turvas da revolução. Esta não é um convite para jantar e a sua condução e o seu resultado não estão previamente determinados.

Se, em França, o salário mínimo é de cerca de 1500 euros (12 meses, líquido cerca de 1160 euros) e vai ser aumentado em 100 euros a partir de Janeiro, em Portugal é de 580 euros, irá para 600 euros segundo promessa do Costa, e para 635 na função pública, no próximo ano, ficando muito aquém, mesmo considerando as diferenças do custo de vida nos dois países. Se, em Portugal, os trabalhadores trabalham em média 1842 horas por ano, os trabalhadores em França trabalham menos 400 horas (1472) e têm mais férias e regalias sociais e, por aparente paradoxo, apresentam uma maior produtividade, cerca do dobro (123,5 contra 66,4 produtividade por hora). Em Portugal, se a estatística oficial diz que a taxa de risco de pobreza baixou em 2017 para 17,3%, menos 1 ponto percentual que no ano anterior, a mesma estatística não consegue esconder que, no mesmo ano, o poder de compra se fixou nos 76,6% da média da UE, abaixo do ano de 2016 (77,2%), ocupando o 16º lugar entre os países da zona euro – poder de compra medido em PPC ( Paridades de Poder de Compra). Uma das palavras de ordem dos coletes amarelos em França é a de “Um salário tem de servir para uma pessoa viver decentemente”; ora, em Portugal, o salário médio (887 euros) não dá para viver minimamente com dignidade e nem a garantia de salário é sinónimo de fugir à pobreza. E isto acontece porque vivemos em capitalismo.

O governo PS/Costa é indisfarçavelmente o comité de negócios da burguesia nacional e europeia que nos invadiu a seguir a 1986 e de todos os grandes grupos económicos internacionais que se aproveitam da mão-de-obra nacional vendida a preço da chuva. A subserviência prestada aos novos senhores do capitalismo internacional, na pessoa do presidente chinês, não deixou dúvidas, as nossas elites vendem-se a quem melhor pagar e o governo é um dócil capacho – a manifestação de regozijo incontido do chefe de divisão de informação e imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros fala por todo o governo. Não terá sido por acaso que esta semana, passados poucos dias da visita de Xi Jinping, os terrenos da antiga Feira Popular, incluindo espaços de domínio público, foram vendidos à Fidelidade, pertencente em 85% à chinesa Fosun – o PS é tão lacaio na câmara de Lisboa como no governo. A constituição como arguidos dos três ex-secretários da governo PS/Costa por terem ido ver a bola com viagens pagas pela Galp é uma outra prova, e não de menor importância, em como esta gente do PS se assume como lambe-botas do grande capital e se ufana de tal. E se o PS ainda não avançou mais resolutamente como lídimo executor dos interesses das elites predatórias e rentistas nacionais é porque eleições se aproximam e há que manter alguma aparência, porque caso contrário teria aceitado de imediato a proposta, apresentada pelo Forum para a Competitividade, de em vez de aumento do salário mínimo nacional a introdução de um escalão negativo no IRS, em que os menores rendimentos recebem um subsídio; claro está, pago pelos impostos de todos os trabalhadores.

A burguesia indígena teme o povo nas ruas, sabe que algum dia isso irá acontecer, o Costa e o PS também o sabem, e todos se preparam para enfrentar a tempestade, é por isso que e o Orçamento de Estado 2019 contem mais dinheiro para a tropa, e o governo já aprovou a proposta de Lei da Programação Militar com 4,74 mil milhões de euros para o período 2019/2030, com o pretexto de “modernizar as Forças Armadas”. Parece que o dito roubo do material dos paióis de Tancos já teve algum efeito. A tropa está pronta para novas incursões no estrangeiro ao serviço do imperialismo (e cumprir com os 2% para a despesa militar, manda o Trump!) e para a repressão a nível interno. Macron tentou a sedução com o aumento do salário mínimo e suspensão do aumento sobre os combustíveis; como esta não terá resultado, encomendou um atentado em Estrasburgo, e em plena época natalícia, para justificar a tropa na rua e a repressão aberta, com a ideia peregrina de desmobilizar os coletes amarelos que prometeram nova manifestação para amanhã, sábado, pela 5ª vez, e outras mais até que Macron e o seu governo sejam demitidos. O Costa já deverá estar com as barbas de molho, apesar do apoio prestimoso de BE e PCP. Tudo será uma questão de tempo: a partir de Outubro de 2019, os acontecimentos se precipitarão, de nada valendo as muletas oportunistas... ou a tropa fandanga.



Os Bárbaros
14 de Dezembro 2018