O reposicionamento político da burguesia e o roubo do material em Tancos

 
 
Abel Manta
 

O partido Aliança surgiu há cerca de um mês, um partido abertamente de direita, o 23ª criado depois do 25 de Abril, com Santana Lopes a reunir mais de 11 mil assinaturas em pouco menos de um mês, cerca de três meses após aquele ex-dirigente e indefectível admirador de Sá Carneiro ter abandonado o PSD. O objectivo é declaradamente o de criar uma alternativa à direita do PSD, partido em frangalhos pelas disputas internas entre os diversos barões após o abandono da gamela do poder, e cuja colocação na ordem Rui Rio tem revelado alguma dificuldade; um possível receptáculo de passistas inconciliáveis com a nova direcção do PSD. Contudo, e se essa era a ideia, o novo partido não recrutou ainda nenhuma figura de relevo e talvez por isso ou devido à paternidade ou em falta de princípios claros, a Aliança não impediu que um outro partido, este indisfarçavelmente de extrema-direita, esteja a ser dado à luz, o “Chega”, uma espécie de irmão do espanhol “Vox”. Os mesmos princípios já escutados em organizações políticas fascistóides em outros países da Europa e ultimamente no Brasil com Bolsonaro. Com uma crise económica que não parece ter fim, com a eventualidade senão a certeza do seu agravamento a breve prazo, com o descrédito da democracia parlamentar burguesa mais a dita social-democracia, a burguesia e o grande capital internacional buscam outras formas de poder e respectivos instrumentos para o exercer, de molde a que os trabalhadores sejam sujeitos a uma maior exploração e subsequente aumento da acumulação do capital. O tempo e a política da cenoura irão dar lugar aos do cacete.

Se a nível político, a burguesia nacional, considerada no seu todo, e que de tradições democráticas pouco ou nada tem, vem manifestado predilecção por formas de poder musculado, e quando necessário abertamente repressivo, se está a criar novos instrumentos políticos, está também a deitar mãos a outros mais eficazes embora mais tradicionais: o poder judicial, com a rápida judicialização da política, sendo o caso “Sócrates” o mais simbólico e ilustrativo; o poder policial, com os corpos policiais dirigidos por oficiais e chefes abertamente nazis, bem expresso pelo caso da Cova da Moura em que são acusados de violência e de racismo 18 agentes da PSP, já referido pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância, que não hesita em acusar a hierarquia da PSP e a Inspeção-geral da Administração Interna de serem tolerantes ao racismo, pedindo inclusivamente que “a polícia pare de relativizar a violência contra negros e ciganos”; as próprias autoridades reconhecem que a PSP se encontra infiltrada por militantes de organizações de extrema-direita. Ora, as forças armadas, principal pilar da dominação burguesa, um instrumento de classe por excelência, não pode ser deixado ao deus dará, e uma solução governativa mais musculada terá de garantir a sua incondicional adesão, o caso do putativo roubo do material dos paióis de Tancos, que afinal veio a saber-se que não passa de munições fora de prazo de validade, pode enquadrar-se na disputa pelo controlo das forças armadas, mais do que uma arma de arremesso para fragilizar o governo do Costa com a demissão do ministro da Defesa, já apelidado de “Azerelho”, uma analogia com a “geringonça”; e, mais ainda, transformando-o no verdadeiro criminoso, há quem o aponte já como arguido, será a subjugação do poder civil ao poder militar, o que contraria o tal “estado de direito”.

Os ataques ao governo via Tancos, a constante e persistente exigência da demissão de Azeredo Lopes quer pela extrema-direita quer uma certa extrema-esquerda, não estão desligados da aversão às figuras do Costa, do Azeredo e do Rovisco por parte da extrema-direita dentro das forças armadas que, no exército, se centra e se exprime através da Associação dos Comandos. Este sector do exército ainda não engoliu o sapo de alguns dos seus oficiais terem sido acusados de homicídio, pela morte de dois instruendos em plena instrução, nunca houve história do poder civil ter afrontado de forma tão frontal o poder militar e um poder militar que se considera elite. Uma “elite” que tem servido de tropa de choque nas incursões imperialistas por parte da UE em África, na Europa e no Extremo Oriente, os ditos “compromissos internacionais do país”, fruto da política de subserviência dos governos portugueses aos interesses dos grandes grupos económicos representados pela UE e pelos EUA. Esta tropa completamente inútil para a defesa do país, um corpo, como todas as forças armadas da burguesia em geral, parasitário, não produtivo e que tem no seu comando oficiais que, alguns deles, pelos menos (e conhecemos a realidade por dentro), deveriam ser sujeitos a tratamento psiquiátrico, considera-se, dizíamos, um estado dentro de estado, não sujeita às leis do país. Não deixa de ser curioso e até caricato ouvir da boca de alguns oficiais frases do género “interesse superior da nação”, “interesse nacional”, versões democráticas do velho lema “tudo pela Nação, nada contra a Nação”, ou “honra”, “limitei-me a cumprir ordens”, como se essa gente não estivesse obrigada a respeitar as leis e a Constituição da República, como qualquer cidadão comum. Não esqueçamos que foram os comandos a tropa de choque que foi utilizada em 25 de Novembro de 1975 para pôr os operários e o povo na ordem, acabando com o valente susto apanhado pela nossa burguesia, e será dentro dessa lógica que esta mesma tropa será de novo utilizada para respaldar um qualquer salvador da pátria que venha a vencer as eleições, como está a acontecer no Brasil, porque os votos por si só não aguentam por muito tempo um ditador no poder. E já a antever mais do que a esconjurar o que poderá aí vir, o PR Marcelo não é inocente, no seu discurso de 5 de Outubro, ao dizer que “não há verdadeira democracia sem direitos do homem e liberdade”, que, referindo-se ao antes do 25 de Abril, “porque os regimes de poder pessoal são incompatíveis com a renovação dos mandatos, logo ali se descortinava o fim do fim da ditadura”, apesar da conciliadora “não há verdadeira democracia sem atenção a entidades estruturantes como as Forças Armadas”.

A história de Tancos está desde o início muito mal contada, não será preciso ter cumprido o serviço militar para perceber que um furto, ou roubo, o que lhe quiserem chamar, daquela natureza e dimensão é sempre feito por gente de dentro e nunca por pessoal de fora, que o material sai sempre pela porta de armas e nunca pelo buraco da rede, este serve quanto muito para o pessoal se desenfiar durante o fim-de-semana, e não se percebe que haja oficiais do exército que arriscam a “honra” e a liberdade para encobrir um reles pilha-galinhas encenando uma recuperação de material; pela lógica, esse trabalho sujo deveria até ser deixado à polícia civil, só se, e aqui ninguém quer falar do assunto, estão envolvidos graduados de patente elevada, ou seja, gente graúda metida na marosca. E só assim se compreende o silêncio e a “ignorância” do Costa e das outras duas figuras metidas ao barulho, que, sabendo dos verdadeiros responsáveis os encobrem a fim de, uma dia mais tarde, cobrar os respectivos dividendos políticos. Esta tem sido, diga-se de passagem, a política do PS que é igual à do PSD e que, em questões importantes, se vão encobrindo um ao outro. Mas, como os tempos são outros e há que redefinir posições e conquistar vantagens, possivelmente, e agora somos nós a especular, a burguesia tenha entendido que é tempo do PS cumprir a sua missão e ir para a prateleira, como aconteceu com os congéneres grego e francês, e então aí está a extrema-direita como pitbull , que quando trinca não larga, e que não se cansará até o governo ou cair ou ir bastante fragilizado para eleições de 2019. No roubo do material de Tancos, falta saber se quem roubou o fez por iniciativa própria ou por encomenda e se os autores morais foram militares ou civis (políticos) ou ambos em conjunto, o resto é poeira para os olhos do reviralho. Não é por acaso que a imprensa corporativa só se ocupa com a demissão do governo e que não deixa de ser mais um elemento de encobrimento dos verdadeiros responsáveis e dos verdadeiros motivos que levaram ao “assalto do paiol”.

Mas não é só o caso dos comandos que irão sentar o cú no mocho que incomoda alguns sectores da forças armadas, de igual modo o caso da corrupção nas messes da Força Aérea, com um oficial general acusado de meter dinheiro ao bolso, num esquema de sobrefacturação de 40%, com 50-50 para ambos os lados, aliás, uma prática generalizada em toda a administração pública, e na privada até, daí o desmantelamento de muitos serviços do estado para dar origem ao famigerado outsourcing, porque assim todos ganham e paga o contribuinte. São ambas afrontas do poder civil ao poder militar, ou, pelo menos, ao poder militar como alguns oficiais da extrema-direita o entendem. Esta aspiração e sentimento de “independência”, de “estado dentro de estado” existe porque não deixa de estar e na origem e natureza das forças armadas burguesas, um corpo de elite, cujos oficiais são formados em escolas especiais (academias), não são eleitos pelos soldados que comandam, são cargos vitalícios, como os juízes ou os polícias, por essência são antidemocráticos, e, como tal, anti-populares, e com a substituição da conscrição pelo voluntariado, esse espírito de organismo acima da sociedade acentua-se. O nosso maior escritor, Aquilino Ribeiro, nunca se cansou de denunciar a aversão que o povo português, nomeadamente o camponês, nutria (e ainda nutre) pelas fardas e pelo recrutamento obrigatório. Já não se trata de questionar a existência de uma polícia judiciária militar, a Constituição não prevê tribunais especiais nem militares, estes só em situação de guerra, como a existência de uma tropa de elite, comandos, fuzileiros, que nunca serviram para defender o país ou a pátria. Estes devem ser extintos.

Agora, querem questionar o tipo de recrutamento, voluntariado ou conscrição, com alguma esquerda a defender esta última, para, dizem, levar o povo a melhor perceber a ideia de pátria ou, a esquerda mais radical, a aprender o manejo das armas e assim mais facilmente fazer a revolução. Ora, estamos perante dois sofismas: o primeiro, a ideia de pátria e de soberania só se compreende em termos de classe, a soberania e a pátria não são os mesmos quando se trata das nossas elites ou do povo português, foi assim ao longo dos séculos e agora dentro da UE/euro; esses conceitos acabam por terem significados diametralmente opostos: dinheiro e poder para as elites nem que se tenham de bandear para o lado do inimigo, foi assim nos séculos XIV, XVI e XIX; sobrevivência, liberdade e dignidade para o povo nos séculos XVII e XIX e agora na UE. Armas para o proletariado para fazer a revolução, não passa de uma boutade , porque antes das G3´s, terá de haver outras armas mais importantes, a ideológica, o marxismo-leninismo, e a política, um partido revolucionário. Contudo, a existência de forças armadas nacionais também está em causa na justa medida em que o país faz parte de uma união que não se pretende meramente económica, e, com o pretexto da emigração clandestina, a formação de umas forças armadas europeias, claro que sob o comando das potências militares mais fortes, estará mais próxima do que se possa esperar. Na luta pela soberania, pela liberdade e democracia, o povo terá de criar as suas próprias forças armadas porque irá contar com as suas próprias forças.

A agitação da extrema-direita na sociedade civil e nas forças armadas acontece num quadro mais geral, que é do senso comum, político, social e económico de profunda crise do sistema económico capitalista e do regime político de democracia parlamentar, e são os partidos género PS que dão a mão e facilitam o aparecimento do considerado monstro. São estes partidos da pequena-burguesia que ajudam a chocar os ovos da serpente, pela cobertura, pela conciliação e pela governação à direita, abertamente ao serviço do grande capital. Os partidos ditos PC´s, pela conciliação, pelo abandono da revolução, do socialismo e do comunismo, a troco de umas migalhas deixadas cair da mesa do orçamento burguês, como agora está acontecer, também ajudam à festa da ascensão do fascismo. Estes partidos desarmaram os operários em termos ideológicos e políticos, sempre propagandearam que o capitalismo possui uma faceta humana dos direitos e das regalias que seriam duradouras e eternas, e não fruto de uma conjuntura sempre precária, que pacificamente através de reformas e de algum milagre da Nª Sª de Fátima em anexo se passará do capitalismo para o socialismo e que se deverá esperar que as coisas aconteçam por si, naturalmente, e não forçar porque não há (aliás, por este pacifismo, nunca haverá) condições para lutar por um mudança mais radical da situação. Não se admirem nem se venham queixar que agora até em Portugal, onde se fez uma “revolução de socialismo à portuguesa”, surja um partido que defende “o regresso da prisão perpétua”, “a castração química para os pedófilos”, “a proibição do casamento gay” e “a redução de deputados para 100”, melhor dizendo, acabar de vez com a Assembleia da Republica”, a tão incensada “casa da democracia portuguesa”. Ou com a eleição de um fascista para a Presidência no Brasil com mais de 40 milhões de votos. É que sempre se puseram a jeito, os nossos pequeno-burgueses e democratas/socialistas da treta. O problema é que será sempre o povo a pagar a conta, porque muitos dos nossos democratas terão apenas o custo de, mais uma vez, virar a casaca.



Os Bárbaros
10 de Outubro 2018