O fiel lacaio... e os trabalhadores em luta |
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O nosso Primeiro correu para Davos, onde tem lugar a reunião magna dos donos do mundo capitalista. Foi receber instruções como se deve fazer a exploração dos trabalhadores em Portugal e como se irá repartir a riqueza extorquida, sempre o maior quinhão para o capital e o mínimo indispensável à sobrevivência de quem trabalha e produz a mais-valia. Assim se compreende que a situação no nosso país não seja significativamente diferente da do resto do mundo: mais de 80% da riqueza criada no mundo em 2017 foi parar às mãos dos mais ricos que representam 1 % da população mundial e a riqueza dos multimilionários aumentou 13% ao ano desde 2010, 6 vezes mais do que os aumentos dos salários dos trabalhadores que ficaram pelos 2%. É a concentração capitalista, é a acumulação da riqueza num sistema de vasos comunicantes que drena sempre para o mesmo lado, o lado da burguesia. A política de austeridade mitigada aplicada pelo PS/Costa é o instrumento no sentido da acumulação e concentração capitalistas, que tem funcionado muitíssimo bem graças à colaboração de PCP e BE, garantes da paz social. A nomeação de Centeno para a presidência do Eurogrupo, espécie de organismo mafioso, por não sujeito a escrutínio democrático, é a recompensa do sucesso dessa austeridade soft, ao mesmo tempo a garantia de que irá continuar, e a confirmação de que o PS é o fiel lacaio em que se pode confiar. O tenebroso Schäuble esfrega as mãos de contentamento e os banqueiros alemães e o grande capital europeu em geral sorriem ao contemplar os números a subir nas folhas do excel. Para os capitalistas regozijarem, os trabalhadores alombam com maior exploração. Os trabalhadores da Autoeuropa são intimidados a aceitar o trabalho à borla aos sábados, o prolongamento da jornada de trabalho para as 12 horas e trabalho também ao domingo, ao gosto da Associação do Comércio Automóvel de Portugal, ao mesmo tempo que são metralhados com as mais diversas provocações de ganharem acima da média nacional (na Autoeuropa há 2500 trabalhadores com salário de 600 euros), de beneficiarem de ajudas indevidas da Segurança Social para a creche dos filhos ou de desprezarem "o país", porque alegadamente, com a sua atitude irredutível, colocam em perigo a permanência da fábrica alemã em Portugal. É a intimidação, a manipulação e a mentira que são usadas, como já é habitual, para amedrontar os trabalhadores de molde a que se deixem explorar até ao tutano e para servir de exemplo aos restantes trabalhadores de que não vale a pena lutar. Quando a manobra não dá resultado, então entra em cena a conciliação e a capitulação dos falsos defensores dos trabalhadores, as comissões ou os sindicatos, nomeadamente o ligado à CGTP, que não subscreveu o pré-aviso de greve para os dias 2 e 3 de Fevereiro; greve aprovada, democraticamente, pelos trabalhadores em plenário. Os trabalhadores da Autoeuropa não se deixarão intimidar e saberão dar resposta aos ataques, e a quem os desfere, de que agora estão a ser vítimas. A solidariedade de outros trabalhadores em luta e da classe operária em geral é mais do que certa. A política de austeridade do governo PS/Costa, beneficiando do apoio do BE e PCP, uma política tipo cenoura em vez de cacete, dá resultado só até um certo ponto, que é o ponto dos trabalhadores deixarem de ter ilusões e o ponto a partir do qual a burguesia exige ainda mais exploração, porque a existente não é suficiente para tirar o seu sistema de exploração da crise. São necessários mais lucros, o movimento, que é a essência e a alma do capitalismo, de mais acumulação e concentração não pode parar ou sequer abrandar, caso contrário, corre o perigo de implosão. São as 463 operárias da têxtil TGI-Gramax/Ex-Triumph que têm agora o desemprego e miséria mais do que certos, após a declaração de falência da empresa – como se vê, a justiça é célere a condenar os trabalhadores e a salvar os capitalistas, mas lenta quando se trata do contrário – se não lutarem e contarem com a solidariedades dos demais trabalhadores. Após quase três semanas de vigília às portas da empresa, de dia e de noite, à chuva e ao frio, aparentemente o esforço terá sido inglório, mas não devem desfalecer e contar sempre com a solidariedade dos demais trabalhadores. Estas trabalhadoras, infelizmente, porque será à sua custa, irão perceber que as palavras dos diversos políticos burgueses não passam disso mesmo, de palavras, outras tantas mentiras destinadas para entreter. Ministro da Economia, Primeiro-Ministro, Presidente da Câmara, Presidente da República não fizeram nem irão fazer nada, no entanto, palavras não faltarão. O PR Marcelo mostrou bem a sua hipocrisia e desprezo pelos trabalhadores e seus problemas ao se ter furtado a reunião, previamente marcada, com as operárias, tendo enviado os assessores e foi mais tarde obrigado a enfrentá-las ao ser apanhado de surpresa, tendo passado a bola para o governo. Não consta que tivesse tirado qualquer selfie com algumas delas. Foi a saída de charlatão. As operárias (e operários) da TGI-Gramax/Ex-Triumph, já em despedimento colectivo, merecem toda a solidariedade do povo português, em apoio pecuniário, em apoio político. Por que é que a CGTP não convocou, ou convoca porque ainda se está a tempo, greves solidárias no mesmo sector económico ou na região de Lisboa? Por que é que não foi exigido ao governo a intervenção directa na empresa e averiguação dos fundamentos da insolvência da empresa, que poderá ter sido fraudulenta? Ao lado das operárias da TGI-Gramax/Ex-Triumph, encontram-se os trabalhadores dos CTT, cujas organizações sindicais já convocaram greve e manifestação para o próximo dia 23 de Fevereiro, conclamando, e bem, a população de Lisboa a participar. Luta contra a redução de pessoal e o encerramento de postos de atendimento, isto é, contra os despedimentos e pela renacionalização da empresa; reivindicação esta que não é assumida abertamente e que deveria ser a primeira de todas. A par destes trabalhadores estão os trabalhadores da PT (Altice) que lutam contra os despedimentos encapotados e o ambiente intimidatório provocado pela administração, pugnam pela melhoria da qualidade dos serviços que só poderá acontecer, à semelhança dos CTT, se a empresa voltar à esfera pública. Aqui, o processo de luta, ao contrário do que é dito pelo dirigente da CGTP, é conduzido com tibieza, querendo levar os trabalhadores a acreditar que com a "nova lei sobre as transmissões" os despedimentos não irão acontecer. Ora, o que está a ocorrer nestas duas empresas, assim como nas restantes, é a reconversão das mesmas, à custa da redução dos custos do trabalho, no sentido de obter maiores e mais rápidos lucros para os acionistas. O ponto é sempre o mesmo: acumulação e concentração do capital. Outros trabalhadores estão em luta, lutam contra o desemprego, cujos números em decréscimo estatístico são constantemente enaltecidos quer pelo nosso primeiro Costa quer pelo PR Marcelo, lutam contra a precariedade e a exploração capitalista. Contra o desemprego, e sem perspectivas imediatas, estão as quase duzentas trabalhadoras/es da empresa Cofaco; e contra a precariedade camuflada, os cerca de 250 trabalhadores do consórcio da refinaria de Sines da Petrogal, já ameaçados de despedimento no início do ano, e que irão manifestar-se no dia 26 de Janeiro, pelas 11h, junto às Torres da Petrogal, em Lisboa. Por que não unir num único caudal a luta e as manifestações destes trabalhadores? De quem e de quê têm medo os sindicatos e as centrais sindicais? Temem que o governo do Costa/PS venha abaixo? Mas esse é um problema dele, governe para os trabalhadores e não para os patrões de cá e de Bruxelas, já que se diz socialista. Só que há um "pequeno" problema, é que não lhe está nem na génese, nem na história e muito menos nos genes, o PS será sempre um partido de direita. É na prática da luta que se vê de que lado estão o PCP e o BE, porque conversa fiada qualquer um a tem. Será na luta de rua que se afere as intenções sindicais quanto às lutas dos trabalhadores da administração pública, nomeadamente, dos professores e dos enfermeiros. Parece que aqui as lutas não são levadas até ao fim porque não se quer ofender a intenção do governo PS/Costa de dar o dinheiro aos bancos em vez de o dar aos trabalhadores, daí as propostas sindicais, que curiosamente coincidem com as do governo, de descongelamento das carreiras em suaves prestações, em cinco anos para os professores e de dois anos para os enfermeiros... e sem retroactivos. Mas quando foi para congelar progressões e cortar salários já não houve cuidados de suavidade, foi de uma só vez e à bruta. Uma atitude que é completamente oposta à aquela que levou os trabalhadores do sector metalúrgico na Alemanha a desencadear greve pela redução do horário para as 28 horas semanais de trabalho e um aumento salarial de 6% para todo o sector. Nada tem a ver com os “nossos” sindicatos que em Portugal nem sequer defendem, na prática, a semana das 35 horas. Quem não luta, não manduca. O governo PS/Costa tem dois pesos e duas medidas quando se trata de resolver os problemas dos trabalhadores ou dos patrões. Para os primeiros nada há e que se desenrasquem, para os segundos é só subsídios a fundo perdido, linhas de crédito a juros bonificados e outras mordomias, ou, então, quando se trata de conquistar votos em camadas intermédias da sociedade, a sua principal base de apoio, não há falta de dinheiro. Quanto aos incêndios, o PS é responsável tanto a montante como a jusante, ou seja, pela sua prevenção, que não existe, e pelo seu combate, que deixou entregue, e parece que vai continuar, a privados, com os resultados já conhecidos e mais os que hão-de vir nos próximos anos. Foi fácil dar subsídios, compraram-se apoios, aliviaram-se as companhias de seguro que deviam arcar com prejuízo, pelo menos no que concerne aos patrões que viram as fábricas ardidas. Pergunta-se, por que é que o Costa e o seu governo não têm a mesma atitude, a mesma política, em relação aos trabalhadores que agora lutam pelo seu salário? Será preciso as fábricas arderem para aparecer de imediato a solução por parte do governo e surgir o presidente/rei com beijinhos e abraços? O Costa foi a Davos e o Centeno foi para o Eurogrupo não para dar solução aos problemas dos trabalhadores, acabar com o desemprego, pôr fim à precariedade e garantir salários dignos aos trabalhadores, mas, sim, fazer o oposto. Porque é o oposto que garante mais lucros aos patrões, mais juros aos bancos, mais-valias ao capital que não pode parar na sua ânsia constante de mais acumulação e mais concentração. No ano de 2017, segundo o relatório da OXFAM (organização baseada em Oxford, no Reino Unido, e presente em quase todo o planeta), 82% da riqueza gerada no mundo ficou com o 1% mais rico da população, enquanto os 82% mais pobres nada receberam. É o capitalismo! Há que acabar com ele. | |||||
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Os Bárbaros 25 de Janeiro 2018 |
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