Poço sem fundo ou Bancos vs Funcionários Públicos |
|||||
|---|---|---|---|---|---|
|
|||||
Enquanto os professores, os enfermeiros, os estivadores, os estudantes do Porto, os taxistas lutam pela resolução dos seus graves problemas, e graves porque envolvem a própria saúde e sobrevivência, não sendo por acaso o elevado nível de stress apresentado entre os diversos elementos destas profissões, os bancos continuam na especulação e no esbulho da riqueza produzida pelos trabalhadores através das diversas ajudas por parte do estado, agora pela mão do governo PS/Costa. A CGD foi recapitalizada em 3,9 mil milhões de euros pelo governo do Costa, numa antecipação de possível privatização na próxima legislatura, e que irá fazer disparar o défice orçamental em dois pontos percentuais, para os 3% do PIB. As ditas “ajudas” (na prática, um autêntico roubo) concedidas pelo estado à banca nacional ascendem a quase 20 mil milhões de euros, dados confirmados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). A factura começou logo em 2008 com o BPN, a seguir foi o BES, o Banif logo de imediato e o Montepio é, por enquanto, o último de forma indirecta. A lista não ficará por aqui, na justa medida em que os banqueiros têm memória curta, inversamente proporcional à arrogância e à cupidez, como acabamos de ouvir da boca de um deles que “há uma percepção negativa sobre os banqueiros” e “não há qualquer bolha imobiliária”, fazendo lembrar o tempo que antecedeu o colapso do banco do DDT, amigo pessoal do PR Marcelo, que em plena liberdade vai gozando com o pagode. Uma maior e mais grave crise económica se avizinha e que servirá de pretexto para novas e mais duras medidas de austeridade a lançar sobre os trabalhadores e o povo português. O governo acaba de afirmar que não há dinheiro para os funcionários públicos, não há para os professores, recusando contar todo o tempo em que a carreira esteve congelada para a progressão; não há dinheiro para os enfermeiros que pretendem o descongelamento não só das progressões mas de concursos dentro da carreira e respectiva valorização, os 150 euros dados aos especialistas mais não é que um engodo para os calar; mas no entanto há dinheiro para salvar a banca internacional através dos juros e das despesas da dívida pública, mais de 8 mil milhões de euros todos os anos, e para as PPP´s. Os salários na Função Pública são sempre uma referência para o sector privado, o governo não garante mais de 600 euros de salário mínimo em 2019, apesar dos apelos de Arménio Carlos e de Jerónimo de Sousa, que não se cansam de exaltar as boas intenções do Costa e as virtualidade da geringonça, e irão ver a pretensão de aumentos salariais entre os 3% e os 4% como uma miragem, ou seja, uma mera bandeira de propaganda eleitoral em eventual benefício do PCP. Como anteriormente denunciamos, enquanto os lucros dos patrões do sector do turismo disparam em progressão geométrica, os salários dos trabalhadores nem sequer crescem em progressão aritmética, simplesmente estagnam, é o que diz a própria imprensa de referência: “entre 2011 e 2017, os hóspedes da hotelaria cresceram 48%, mas o pessoal empregado em hotelaria, restauração e similares só cresceu 13%”, com as consequências esperadas de “horas de trabalho em excesso e baixas remunerações, que, por sua vez, afastam do sector a mão-de-obra mais qualificada. O governo da geringonça, que engloba três partidos, todos apostados na mesma estratégia política, económica e social, defende um desenvolvimento económico assente em mão-de-obra intensiva e mal remunerada, embora o Costa venha de vez em quando declarar à comunicação social o contrário, só que os números não enganam, são como a publicitária prova do algodão: o emprego cresce mas a produtividade por empregado continua a diminuir. O quer dizer que, entre 2015 e 2017, o emprego total cresceu em 226,2 mil empregados, e, até ao final do 2.º trimestre de 2018, aumentou mais 87.000 empregos, sendo agora 4,889 milhões; contudo, entre 2013 e 2017, a produtividade por empregado, calculada com base no VAB (PIB sem impostos nem subsídios) diminuiu, passando de 33.285 euros para 32.555 euros por empregado, dados apresentados pelo INE. Isto significa uma transferência de riqueza dos trabalhadores para os patrões: se, em 2008, parcela do PIB que revertia estes últimos, sob a forma de Ordenados e Salários, era de 36,6%, já, em 2017, era apenas de 34,6%; entretanto, a parcela do PIB de que os capitalistas se apropriam sob a forma de “Excedente Bruto de Exploração” era 40,6%, em 2008, mas, em 2018, já é 41,8% do PIB – são dados do INE. À medida que o fosso entre ricos e pobres se alarga, a descapitalização das principais empresas portuguesas não pára, com o recebimento por parte dos acionistas de dividendos que são superiores aos respectivos lucros: a divida das empresas do PSI-20 aumentou em 1.180 milhões de euros na primeira metade do ano de 2018, devido à distribuição de 2.430 milhões de euros de dividendos relativos a 2017, atingindo um nível de endividamento líquido de 28.653,7 milhões de euros. Claro que, agora, é de esperar que a um próximo pretexto de crise estas empresas recorram às ajudas do estado, ou seja, irão aos bolsos do povo português, passando a dívida que é privada para o domínio público. Neste momento, um dos principais patrões nacionais, apontado como “empresário de sucesso”, o ex-presidente da Somague, Diogo Vaz Guedes, que pede um perdão de dívida de 67,2 milhões de euros relativa à Gespura, uma sociedade gestora de participações sociais, com os credores BCP e o Novo Banco a arderem, depois de ter vendido a Somague ao grupo Sacyr por 180 milhões de euros, empresa que acaba de ganhar a empreitada da ponte 25 de Abril por 12,6 milhões de euros. É só encher o saco, é o fartar vilanagem! Quanto às empresa do PSI-20 e que em breve estarão a bater à porta do governo são todas elas conhecidas: a EDP, a Jerónimo Martins, a Nos, a Sonae, a Navigator, os CTT, a REN, a Ibersol, a Pharol, a Galp, a Altri, a Semapa e por aí fora, que estão isentas de impostos em Portugal porque possuem sedes instaladas no estrangeiro. Enquanto os grandes capitalistas fogem ao fisco, os trabalhadores portugueses arcam com uma canga cada vez mais pesada: 67 mil milhões de euros foi quanto o estado arrecadou dos contribuintes portugueses em 2017, subindo de 34,1% para 34,4% no período de um ano, um dos valores mais elevados desde 1995; curiosamente o mesmo valor de 2015, o último ano do governo pafioso. E querem o PCP e o BE irem para o governo! O governo do PS segue, em linhas gerais, a política do governo anterior, respeitar os ditames de Bruxelas e as “recomendações” do FMI, garantir os lucros do grande capital internacional: o que está bem presente na luta dos taxistas que reivindicam a alteração conhecida “lei Uber”, que é uma luta pela sobrevivência (e onde se assiste a um comportamento esquizofrénico do PCP, que vem para a rua colocar-se ao lado dos taxistas, mas simultaneamente apoia a geringonça); o que também está presente na questão da prospecção de petróleo na costa algarvia, com o governo a contestar em tribunal uma decisão judicial que contraria as pretensões da Galp e da ENI, mostrando que, não estando apenas contente em estar ao serviço do grande capital estrangeiro, é um partido que ama a corrupção. A causa das petrolíferas é a causa dos governantes socialistas, o que é para perguntar a quanto montam as luvas e prebendas? Talvez não seja uma mera coincidência o facto da ministra do Mar ter sido assessorada por um gestor da Galp Energia, que antes fora assessor de imprensa de Manuel Pinho no Ministério da Economia e depois transitou para o tacho na Galp Energia, e ser ainda sócia da presidente dos portos de Lisboa, Setúbal e Sines, que ela própria nomeou em Maio de 2016; portos, onde os estivadores lutam por melhores salários e por dignas condições de trabalho. O Costa e o PS, apesar do papel de lacaios do grande capital e de agentes activos de corrupção, parecem estar com sorte, se se confirmar que o roubo do material de guerra dos paióis de Tancos foi uma encenação, e uma encenação feita por encomenda, como na altura defendemos, ainda correm o risco de ganhar as eleições legislativas de 2019 com maioria absoluta, recebendo votos tanto da direita como da esquerda que não se cansaram de acusar o governo de grave negligência e de pedir a demissão do ministro da Defesa. A oposição, ou dita “oposição”, então, só poderá queixar-se de si mesma. | |||||
|
Os Bárbaros 25 de Setembro 2018 |
|||||