O Aumento da exploração dos trabalhadores e a proletarização da classe média |
|||||
|---|---|---|---|---|---|
O tempo é o campo do desenvolvimento humano. O homem que não dispõe de nenhum tempo livre, cuja vida, afora as interrupções puramente físicas do sono, das refeições, etc., está toda ela absorvida pelo seu trabalho para o capitalista, é menos que uma besta de carga. É uma simples máquina, fisicamente destroçada e espiritualmente animalizada, para produzir riqueza alheia. E, no entanto, toda a história da moderna indústria demonstra que o capital, se não se lhe põe um freio lutará, sempre, implacavelmente e sem contemplações, para conduzir toda a classe operária a este nível de extrema degradação. Salário, Preço e Lucro – Karl Marx (Cap. 13 - Casos principais de luta pelo aumento de salários ou contra a sua redução) O governo do Costa/PS embandeirou em arco com os números do "crescimento económico": mais 2,7% em 2017, mais 1,2 pontos do que em 2016, em 17 anos é o ritmo de crescimento mais elevado, mais do que inicialmente previsto pelo governo (2,6%) e ainda mais do calculado pelo ministério das Finanças (1,5%) e ainda... acima da média da UE (2,6%) no seu conjunto (a zona euro ficou igualmente nos 2,7% - uma pena!); e as exportações cresceram 8%, o investimento uns 10% e até... o número de médicos e de enfermeiros subiu no SNS! Os apoiantes BE e PCP tentam também chamar para si os louros da vitória, mas, como estamos já em tempo de pré-campanha eleitoral, dizem que não chega, que é preciso ir mais além, daí apresentarem propostas no Parlamento que antecipadamente sabem que não vão ser aprovadas ou convocarem greves que antes de o serem são previamente desconvocadas porque as partes, administrações e trabalhadores, chegaram a acordo ou em vias de tal: CP e Autoeuropa, por exemplo. Contudo, há o reverso da medalha, que consiste: o rendimento das famílias portuguesas encontra-se ainda abaixo de 2008; Portugal atingiu o nível de desigualdade mais baixo de sempre, continuando entre os mais desiguais da União Europeia, com 11% de trabalhadores pobres, quase 2,4 milhões de pessoas em situação de “risco de pobreza ou exclusão social”; Portugal está entre os dez países da OCDE onde se trabalha mais horas por ano e é o quarto da União Europeia, ultrapassado apelas pela Grécia, Polónia e Letónia; só um terço dos novos contratos firmados desde 2013 são por tempo indeterminado, 63,3% são contratos precários; a especulação imobiliária chegou aos 14 mil euros por metro quadrado em Lisboa e Porto, com a gentrificação dos centros destas duas cidades, milhares de trabalhadores e de moradores pobres, na maioria idosos, são expulsos para as periferias; 25% dos compradores de casas em Portugal são estrangeiros, lavagem de dinheiro na maior parte dos casos, transformando o país num paraíso fiscal soft, onde grandes fortunas, reformados e turistas desde que estrangeiros beneficiam de enormes isenções fiscais; enquanto a dívida pública soberana chega aos 130% do PIB e a dívida privada, incluindo empresas e banca, ultrapassa os 270%. Ainda há pouco tempo o grupo Soane/Continente aumentou os trabalhadores de molde a ficarem todos acima dos 600 euros mensais, apresentando a medida como um grande progresso para os trabalhadores, escondendo contudo que a grande maioria ganha salário abaixo dos 650 euros, não deixando de reafirmar a consigna do fundador do grupo de que "vale mais um fraco ordenado do que o desemprego". Uma realidade que está de acordo com a reestruturação mais geral do mercado de trabalho em Portugal desde o início do século e que se intensificou nos anos da troika. Uma reestruturação violenta que conduziu ao aumento da precariedade, dos baixos salários e da proletarização de sectores cada vez maiores da sociedade portuguesa. Os números coligidos pelo economista Eugénio Rosa a partir dos dados recentes do INE não deixam dúvidas. Os números mostram que houve a expulsão nesse período (2000-2017) do mercado de trabalho de mais 1,6 milhões de trabalhadores de baixa escolaridade, enquanto o emprego dos trabalhadores do ensino secundário aumentou em 661.000 e os com ensino superior em 760.000; o que não foi suficiente para compensar a destruição de empregos ocupados por trabalhadores com o ensino básico, ficando um saldo negativo de 264.000 empregos. No mesmo período, o peso dos trabalhadores por conta de outrem no emprego total aumentou de 72,7% para 83%, a percentagem de patrões (na terminologia do INE "Trabalhadores por conta própria como empregadores") na população empregada total diminuiu de 4,5% para apenas 3,3% do total, o que representa uma clara e crescente proletarização da sociedade portuguesa. Processo de proletarização este que se verifica também pela diminuição do salário real. Se, em 2007, apenas 29% dos trabalhadores tinham o ensino secundário e superior, essa percentagem subiu, em 2017, para 52,4%, os baixos salários continuam a baixar ainda mais. Os patrões pagam, em 2017, salários mais baixos, aos trabalhadores com o ensino secundário e superior, àqueles que pagavam anteriormente aos trabalhadores com o ensino básico, aproveitando-se do desemprego existente. O que explica que centenas de milhares de jovens portugueses tivessem emigrado em massa, especialmente durante o período pós crise 2008, que coincidiu com a troika em Portugal, já que não conseguiam, nem conseguem ainda, encontrar no seu país um trabalho e um salário dignos. Segundo os dados do INE (e se utilizarmos os escalões de 660€ e de 990€ em 2017 que correspondem, em poder de compra, aos valores de 600€ e 900€ em 2007), a percentagem de trabalhadores por conta de outrem com salários líquidos inferiores aos 660€ é de 33,5% e com salários inferiores a 990€ é de 74,5%, percentagens esta superior à de 2007 que era 70,7%. Ou seja, os salários médios em Portugal, em termos reais, baixaram de 2007 para 2017, afectando principalmente os trabalhadores mais qualificados. Perante a realidade de um capitalismo levado ao extremo, só uma conclusão: indubitavelmente que a próxima etapa da revolução é a etapa socialista . Perante estes factos interligados, baixos salários, precariedade e proletarização de pelo menos de uma parte significativa da considerada "classe média", o aumento da exploração é mais que evidente e acontece para permitir uma maior acumulação de capital e em mãos de uma minoria, cada vez mais minoritária. E os governos da PSD/CDS e agora do PS/BE/PCP mais não têm feito do que garantir esse processo de acumulação e concentração que se traduz, na outra extremidade da sociedade, por um acelerado e crescente empobrecimento. Assim, não é por acaso que o patrão do Pingo Doce, Soares dos Santos, considere "que a actual solução governativa não é má para Portugal, segundo o jornal do regime "Expresso". Sobre-explorar os trabalhadores e garantindo o seu consentimento para o efeito, como se verifica pela paz social reinante, é melhor do que óptimo, é a cereja sobre o bolo, no entanto, não é esta a opinião dominante da burguesia indígena, que não se sente saciada, e deseja sempre mais. Patrões que se têm manifestado que há dificuldade em encontrar trabalhadores, dizem que há carência de mais de 148 mil trabalhadores e, mais recentemente, o segundo presidente da CIP pós-25 de Abril e agora dirigente de um "Fórum para a competitividade" não esteve de modas e expressou o que vai na alma da maioria da burguesia nacional: "as pessoas não querem trabalhar". Mas pelos salários miseráveis que estão dispostos a pagar, coisa que já não ousam dizer. É esta a competitividade que os ditos "empresários" e demais "empreendedores" defendem, uma competitividade com base em salários miseráveis. E é para esta gente que a direcção recentemente eleita do partido por excelência da burguesia, o PSD, fala: nós somos os mais indicados para gerir os vossos negócios e já estamos a prometer-vos a privatização dos dinheiros da segurança social, um bolo apetecível para bancos, seguradoras e fundos especulativos; uma maior desregulação das leis do trabalho; acabar com o direito à greve, começando no sector da saúde e dos transportes – as tais "reformas" indispensáveis ao "crescimento económico". É a extrema-direita populista mal disfarçada e oportunista, branqueando o que foi a sua obra em 4 anos e meio de governo, e que se vai aproveitando da verdadeira natureza do governo PS/Costa. Este também um governo comité de negócios da burguesia, que compactua com os crimes cometidos pelas diversas empresas que paulatinamente vão destruindo a vida dos trabalhadores, com os despedimentos colectivos, e destruindo o meio ambiente, de forma impune e arrogante, como se vê na poluição do maior rio português, por três empresas de celulose, corolário da política do "petróleo verde". Facto aquele cujos contornos indiciam fortemente não só o carácter político do governo Costa/PS como também a corrupção existente em muitos ministérios, envolvendo ministros, secretários de estado e dirigentes de departamentos do estado que deveriam velar pela saúde e bem-estar dos portugueses. O ministro do Ambiente tem dez vezes mais motivos para apresentar a sua demissão do que, por exemplo, o ministro da Defesa ou até a ex-ministra da Administração Interna. O tempo vai mostrando que este governo, para além do objectivo que persegue da infindável acumulação e concentração capitalista, não é menos corrupto do que aquele que o antecedeu. A diferença é que disfarça melhor e ainda vai mantendo uma maior base social de apoio. Até um dia... A classe operária deve saber que o sistema actual, mesmo com todas as misérias que lhe impõe, engendra simultaneamente as condições materiais e as formas sociais necessárias para uma reconstrução económica da sociedade. Em vez do lema conservador de: "Um salário justo por uma jornada de trabalho justa!", deverá inscrever na sua bandeira esta divisa revolucionária:"Abolição do sistema de trabalho assalariado!". https://www.marxists.org/portugues/marx/1865/salario/cap03.htm#i12 | |||||
|
Os Bárbaros 20 de Fevereiro 2018 |
|||||