Quando o PS e Mário Soares eram financiados por Mu' Ammar el Kadhafi

por Rui Mateus

 
 
Em pleno “Verão Quente” com Mário Soares e Rolf Theorin numa das ilhas do arquipélago de Estocolmo em Agosto de 1975. O comité de solidariedade, decisivo para o 25 de Novembro, tinha sido criado um dia antes.
 

No PS, entretanto, assistia-se a uma penetração galopante do Partido Comunista em virtude da ausência do seu secretário-geral. Salgado Zenha, então a única possível alternativa ao secretário-geral, era igualmente membro do Governo, responsável pela pasta da Justiça. Para satisfação do PC «o Partido foi, desde o início, relegado para segundo plano» e Tito de Morais «assegurava quase sozinho o funcionamento» do PS, na sua primeira sede nacional. E se a visita ao Palácio de Belém lembrara ao sueco Sten Andersson «uma cena tirada de um velho filme de piratas», a sede do Partido Socialista na Rua de S. Pedro de Alcântara onde «reinavam», em crescente incompatibilização, Manuel Tito de Morais e Manuel Serra, fazia lembrar uma cena tirada de um saloon de um velho filme do far west ! O tesoureiro do Partido era um dos fundadores presentes em Bad Munstereifel, Carlos Carvalho, que usava como método de contabilidade a acumulação de papelinhos soltos, onde ia depositando números e com os quais passava recibos. Método aliás legado aos seus sucessores. Diplomatas e delegações estrangeiras eram recebidas nos corredores e nas escadas. Manuel Serra, Aires Rodrigues e Fernando Oneto, acompanhados dos seus «seguranças», andavam numa «lufa-lufa» à procura de indícios dos «golpes de estado» que a imprensa anunciava com antecedência, enquanto toda a gente berrava ao mesmo tempo, como se para afastar de vez os velhos fantasmas que ainda ali habitavam. O PS tinha assentado praça no edifício da sede da Comissão de Censura do Governo de Marcello Caetano! No meio de toda aquela barafunda, a única pessoa que parecia controlar minimamente a situação era a Maria do Carmo Maia Cadete, coordenadora do secretariado nacional.

Mário Soares ia, entretanto, aproveitando algumas das suas viagens enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros para angariar alguns fundos para o Partido Socialista. Mas, apesar de alguns contributos iniciais dos partidos sociais-democratas escandinavos, do SPD e de uma campanha de angariação de fundos lançada na Holanda pelo PVDA (Partido Trabalhista) e pelo seu dinâmico secretário para as relações internacionais, Harry van den Berg, os apoios financeiros estavam longe de ser o que muitos imaginavam e se insinuava. Segundo consegui apurar, o movimento sindical norueguês deu pela primeira vez ao PS, em Maio de 1974, «após visita a Oslo de Francisco Ramos da Costa», cem mil coroas norueguesas. E demonstrando os seus bons contactos internacionais e capacidade de angariação de fundos, também o PSD da Dinamarca forneceria cinquenta mil coroas «enviadas através do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa». No dia 29 de Julho, após um encontro com Bernt Carlsson, fui informado de que o partido sueco tinha atribuído à sede do PS cem mil coroas, para além do apoio que enviaria preferencialmente para as organizações locais e regionais do Partido. Também ofereceria uma rotativa «Solna offset» nova que, contudo, só chegaria ao PS em 1975 (mas que se tornaria imprescindível para imprimir cartazes e autocolantes a cores) além de cerca de 78 000 coroas entregues em mão na sede. E, tanto quanto sei, a Fundação Friedrich Ebert doaria pelo menos meio milhão de marcos alemães através da Fundação António Sérgio, primeira das fundações do PS. Mas, como muitos dos donativos, sobretudo os mais pequenos, eram feitos em mão pelas delegações que vinham a Portugal ver a «Revolução» e como nada era aparentemente contabilizado – prática a que os partidos portugueses rapidamente se habituariam – é praticamente impossível saber ao certo os montantes exactos que na totalidade o PS receberia dessa «solidariedade» internacional.

Pelos meus cálculos, com base na pesquisa informal que eu próprio faria posteriormente, deduzi que, em 1974, o PS não recebeu de partidos «irmãos» montantes significativos e nem de longe minimamente comparáveis aos que os serviços de informação americanos afirmavam o PCP estar a receber! Aliás só o secretário-geral sabia exactamente quanto e de onde recebia o dinheiro sendo certo que, na prática portuguesa, o controlo financeiro dos partidos está intimamente ligado ao controlo do próprio partido. Não admira que este tipo de informação permaneça fechado e que as leis da chamada transparência, aprovadas pelos principais partidos políticos, permaneçam ainda hoje tão opacas!

Mas fazia parte da estratégia do PS desmentir sem convicção os financiamentos estrangeiros, para poder insinuar apoios massivos europeus e assim atrair para o partido os quadros de que necessitava. O contrário significaria muito provavelmente que o PS permaneceria o pequeno grupo de amigos que era no dia 25 de Abril de 1974. Mas mesmo após as visitas de François Mitterrand, de Willy Brandt, de Olof Palme e do senador norte-americano Edward Kennedy em 1974, os apoios ocidentais davam para «quebrar o galho», mas exprimiam claramente as reservas da Europa e dos Estados Unidos em relação ao «contrato» do PS com o Partido Comunista e em relação à influência do PS na sociedade portuguesa.

Os americanos, que após os primeiros sinais de cooperação de Mário Soares nos anos 60 acompanhariam com grande cepticismo a sua «reassociação» aos comunistas, não queriam sequer ouvir falar do PS e a maior parte dos líderes sociais-democratas europeus, eram chefes de partidos fortemente implantados no operariado e apoiados por fortíssimos movimentos sindicais de tradição anticomunista, que viam em Mário Soares uma espécie de reflexo da política de François Mitterrand, em que não acreditavam. Mas, a título de curiosidade, o único partido da Internacional que nunca deu um tostão ao PS português foi precisamente o PSF de Mitterrand onde inúmeros dirigentes, como por exemplo Jean Pierre Chevenement, considerariam Mário Soares pouco progressista.

Mas, Manuel Tito de Morais, nas funções de secretário-geral «interino» ia recebendo alguns donativos e, nesta matéria, «tudo o que vinha à rede era peixe». Mantinha-os contudo bem longe dos olhos curiosos de Manuel Serra utilizando, inicialmente, a Associação António Sérgio, como centro de angariação. No início havia muitas reticências dos partidos irmãos da Internacional Socialista em relação ao seu congénere Português que eles ainda mal conheciam. Não se tratava só da impressão de que o PS tinha fraca implantação e seria uma espécie de apêndice do PCP. Para a grande maioria dos dirigentes sociais-democratas europeus, a colorida agitação da extrema-esquerda liderada pelos MRPP e UDP era um mau presságio, reminiscente do que se passara no Chile no ano anterior. E para muitas das suas bases, e até para alguns dirigentes, para quem as boas revoluções são as do Terceiro Mundo, os «capitães de Abril» eram o elemento mais chamativo da Revolução Portuguesa! Perante tal cepticismo, creio que até ao I Congresso que teria lugar em Dezembro, o único contributo significativo recebido pelo Partido Socialista tinha sido angariado no seguimento da visita de Mário Soares a Trípoli, em Novembro de 1974, onde se encontraria com o coronel Kadhafi, tendo, a partir daí, a conta da Associação António Sérgio sido rapidamente transferida para o Nederlandsche Middenstandsbank de Hilversum, na Holanda, que, posteriormente, viria a ser titulada por José Neves, também ele fundador do Partido em Bad Munstereifel. Escrever-lhe-ia posteriormente, aproveitando a visita a Tripoli de José Neves e Catanho de Menezes para agradecer e exprimir a sua «admiração pelo interesse e ajuda que [Kadhafi] deu à luta e libertação do Povo Português» assim como para o informar de que o PS estava «de novo em condições de reabrir os nossos contactos com todas as forças que no mundo lutam pela libertação dos povos. Entre essas forças, tanto a Líbia como V. Ex.ª jogam um papel altamente fundamental. Os meus camaradas do Partido Socialista portadores desta mensagem farão todo o possível para desenvolver ainda mais as nossas relações mútuas» (1) .

Notas:

1- Carta do secretário-geral do PS a Mu' Ammar el Kadhafi

In “Contos Proibidos – Memórias de Um PS Desconhecido” de Rui Mateus. 1996



Os Bárbaros
01 de Março 2019