O PS e algumas realidades incontornáveis

 
 
Costa, amigo do peito – http://henricartoon.pt
 
 

O PS fez o seu congresso onde revelou, para quem ainda tivesse dúvidas, ao que anda na realidade, o que é que o move; e o que o faz mexer é a ânsia de bem servir o patronato e o capitalismo. É o chefe que o afirma: “o PS é o partido que melhor governa a economia e as finanças públicas". E mais ainda, para os mais cépticos, conseguiu (diz ele) “virar a página da austeridade sem sair do euro; na verdade, não se saiu do euro porque foi necessário manter a austeridade, a página não foi virada, simplesmente maquilhou-se a dita com pequeníssimas concessões em relação ao roubo descarado que foi perpetrado até final de 2015, e que ainda se mantém. A austeridade segue agora, e nem será por muito mais tempo porque nova crise virá aí, em dose suave.

E a prova cabal e mais recente de que o PS é um instrumento dócil nas mãos dos capitalistas nacionais é o facto de ter sido aprovado, a nível da concertação social, e em breve no Parlamento, as alterações à lei laboral com a perpetuação da precariedade, contratos a prazo e baixos salários, e uso e abuso dos estágios e períodos experimentais, já com o acordo prévio do BE, mantendo todas as reformas feitas ao Código do Trabalho até agora sob a argumentação da crise.

E foi no Congresso que o PS relança a sua campanha eleitoral, já em marcha franca, dirigindo-se à juventude com mais uma tida “questão fracturante”, a eutanásia, que teve para já o condão de empurrar para o mesmo lado, apesar do chumbo parlamentar de que todos estavam à espera, as forças mais reaccionárias da sociedade portuguesa, colocando lado a lado a hierarquia católica ultramontana, que ridiculamente chegou a agitar o perigo de genocídio, a múmia quer passou por Belém, o ex-chefe pafioso e o PCP, mais preocupado em manter o seu eleitorado da província e de idade mais avançada, que, diga-se de passagem, é a sua principal base social de apoio, do que propriamente afirmar a sua “visão humanista” da vida.

O PS marcou pontos, levantou uma questão fracturante, mostrou ser um partido moderno, que se preocupa com a juventude e não ficou com o ónus da aprovação da eutanásia, a iniciativa não passou de uma manobra de marketing, e vai tentar chegar à maioria absoluta, embora não o admita. Contudo não consegue esconder que não passa de um conjunto de homens de mão do capital, como também ficou provado com a história das incompatibilidade do ministro Siza Vieira e do beija-mão à fräuhlein Merkel que veio visitar o seu protectorado à beira-mar plantado.

No congresso, Costa não teve o rebuço de dizer que em relação à questão da dívida fez uma “gestão rigorosa das finanças públicas”, evitando assim a necessidade de uma renegociação unilateral junto dos credores internacionais, provando que quem defendia a renegociação estava errado; ora, o homem não explica por que é que a dívida pública está continuamente a aumentar, com constantes idas ao mercado, tendo crescido a um ritmo superior ao do PIB no primeiro trimestre do ano, agravando-se em 0,7%, chegando agora aos 223.233 milhões de euros, ou seja, mais 2.555.556 euros (entre final de Março de 2017 e final de Março de 2018). Por este andar, e após o aviso de que o crescimento da economia irá abrandar, a renegociação será inevitável, por muito que o Costa se mostre preocupado com o futuro do euro.

A visita da Merkel foi aproveitada para pedinchar menos cortes nos fundos europeus (menos 600 milhões nos fundos destinados ao mundo rural – e quer esta gente travar a desertificação do interior do país!), mas simultaneamente mais investimento do capital alemão, ao que parece o primeiro empregador estrangeiro em Portugal, consolidando desta forma o estatuto de protectorado em que Portugal se encontra. A subjugação crescente ao capital internacional mostra que a burguesia nacional é uma burguesia rentista, uma burguesia lúmpen, integrada na cadeia global do capitalismo e que de “nacional” nada tem. E uma dívida, pública e privada, impagável, uma economia dependente do estrangeiro e uma moeda imposta externamente, é uma realidade que acaba de vez com a soberania do país. E disse o Costa, no Congresso, que o seu governo abdicou da "lógica do bom aluno" do anterior governo e que tomou uma posição de “menos submissão na frente europeia”, é mesmo para se dizer que o Costa é um farsante!

Para não haver dúvidas de que o governo PS, apesar de este partido entrar em competição com o PSD para se saber quem melhor serve o capital, é isso mesmo: um comité de negócios dos capitalistas, nacionais e estrangeiros, entregando a cada um segundo a repartição capitalista imposta internacionalmente, ou seja, pela Alemanha; esta uma economia ainda dominada pelo imperialismo norte-americano, Costa segurou o seu ministro Adjunto, homem que vem do escritório de advogados Linklaters, que tem como cliente a China Three Gorges, empresa que por sua vez é a principal accionista da EDP, e foi o homem que lidou, já dentro do governo, com questão da OPA da China Three Gorges à EDP. Segundo Costa, não há conflito de interesses, a falta de registo, por parte do seu amigo da faculdade, de ter sido sócio de uma empresa que actua no ramo imobiliário e da consultoria empresarial, registada um dia antes de entrar para o governo, não passará de um “percalço administrativo e burocrático” ou, para o líder da bancada socialista, de mero “lapso”. Bem razão tinha o considerado “pai” do SNS, António Arnaut, falecido há pouco tempo, que disse ter saído do PS quando viu tanta corrupção e carreirismo, isto ainda na década de oitenta. Agora, passados trinta e tal anos, como será?

O secretário-geral socialista, no congresso, apontou como exemplos de alargamento da liberdade defendidos pelo partido a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, a legalização do casamento e adopção por pessoas do mesmo sexo e, agora, a despenalização da morte assistida. Tudo um legado de valores, deixado pelo principal fundador, também já defunto: “valores da liberdade, da democracia, da igualdade e de integração na Europa sem sacrificar universalismos portugueses”. Uma demagogia que se pretende continuar na campanha eleitoral em curso e que destina fundamentalmente ao eleitorado de esquerda e ao mais jovem, competindo directamente com o BE. O Bloco não vai ter aumento de votos, não conseguirá capitalizar a seu favor o apoio que tem dado ao governo, continuará como um sucedâneo do PS e que só conseguirá substitui-lo em caso de falência deste último, e o PS sabendo disso evita grandes aproximações à direita, pelo menos de forma demasiado conspícua, lembrando-se do que aconteceu ao seu congénere grego.

E o PCP não terá sorte diferente, jamais conseguirá aproveitar em termos eleitorais os miseráveis retornos daquilo tudo que foi espoliado aos trabalhadores e ao povo. As greves agora por si dirigidas, embora com base em justas e sentidas reivindicações dos trabalhadores, por exemplo no sector da saúde e na educação, soam já a falso e depressa essas lutas, como tem acontecido e especialmente em passado recente, serão mais uma vez traídas. O alinhamento do PCP pelas posições retrógradas e primitivas da igreja católica quanto à questão da eutanásia não passa de uma tentativa desesperada de não perder votos; perda que achamos mais do que certa, aí uns 5 a 8% em legislativas. E mesmo um partido sem representação parlamentar, como o PCTP/MRPP, que mimetiza as oscilações de resultados eleitorais do velho partido revisionista, ao não querer tomar posição pública sobre a eutanásia, para não afugentar possíveis votantes, corre o sério risco e para além de não conseguir qualquer deputado vir a perder a subvenção estatal que tem recebido por ter atingido os 50 mil votos.

Estes partidos de esquerda, e esquerda revolucionária, pelo menos é disso que se reivindicam em palavras, esquecem que se a taxa global de desemprego é de 7 e pouco por cento, dados oficiais do governo, a taxa de desemprego em Portugal entre os jovens (menores de 25 anos) é de 23,9%, três vezes maior do que a do grupo etário seguinte, entre os 26 e os 55 anos; entre os jovens que têm emprego, cerca de dois terços têm contratos temporários; por esta e outras razões, as mulheres têm o primeiro filho por volta dos 30 anos, quando já não são “jovens”; não é por acaso que de uma forma geral os jovens estão alienados do sistema político, por exemplo, apenas 44% dos indivíduos entre os 15 e os 29 anos respondem “sim” à pergunta “Tem confiança no governo nacional do seu país?”; e 40% dos jovens não estão interessados na política e, consequentemente, a abstenção entre os jovens é mais elevada do que na restante população. Um partido que se diz “comunista” e que se encontra afastado da juventude não tem qualquer futuro.

Mas mais. O resultado da votação no Parlamento que chumbou a despenalização da eutanásia, um direito de qualquer cidadão de decidir sobre a sua vida e não o estado ou a igreja, pela magra margem de 5 votos, mostra que os deputados não representam, no seu conjunto, os interesses e o sentir da sociedade portuguesa, mesmo considerado as diferenças e as diversidades a nível social ou económico; considerando a voz da rua, das redes sociais e das sondagens dos órgãos de informação burgueses, a eutanásia tem aceitação, tal como o aborto, da maioria da população. O distanciamento entre deputados eleitos e os cidadãos putativamente representados é cada vez maior; o Parlamento actual é cada vez mais um órgão inútil até para a própria burguesia, quanto mais para o povo e os trabalhadores. Torna-se premente a criação de uma alternativa comunista e revolucionária por parte do proletariado. Em tempo de crise crónica do capitalismo, a fase actual da revolução é socialista. O futuro é o socialismo e a sociedade comunista, em alternativa é a barbárie e inclusivamente o fim da humanidade a breve trecho.



Os Bárbaros
03 de Junho 2018