Silly season 2018: o incêndio da serra de Monchique e as férias de uns tantos

 
 

O Almoço do Trolha – Júlio Pomar

 
 

A estação já vai a meio, os dirigentes dos diversos partidos do establishment foram a banhos e os sindicatos mandaram os trabalhadores para férias, está muito calor para lutas, e o nosso primeiro Costa do PS acaba de visitar Monchique no rescaldo do incêndio que destruiu 27 mil hectares de floresta. Números ainda longe dos de 2003, 70 mil hectares, era primeiro-ministro o incontornável Durão Barroso, mas já o maior incêndio na Europa, isto pouco mais de dois meses após uma outra visita do Costa para ver como era feita a prevenção e sensibilização da população contra incêndios. Ao que parece o sistema falhou, no entanto, uma “falha” muito ao jeito dos interesses dos empresários dos fogos e de um mais que certo reordenamento capitalista da floresta, seja para o turismo, como afirma o Costa, ou para as celuloses que têm recebido ajudas estatais e europeias cinco vezes superiores para a plantação do tal “petróleo verde” em detrimento de outras espécies, autóctones e próprias do clima mediterrânico, mas de menor rentabilidade. Pouco tempo antes do incêndio que devastou mais uma vez a serra de Monchique, a Navigator levou a cabo uma operação mediática sobre a qualidade do “eucalipto de Monchique” e reflorestação da serra, será a eucaliptização não a 73% mas 100%. O tempo o dirá.

Quanto a incêndios, também parece que ninguém aprendeu com as tragédias vivida em 2003, 2016 e 2017, a começar pelas populações locais. Os 10 milhões de euros rapidamente prometidos pelo governo irão anestesiar as mentes das pessoas, com o fim de arrebanhar mais uns votos para as eleições que vêm para o ano, a direita bem tenta diabolizar o governo; agora, não foram as mortes mas a aparente brutalidade da GNR na evacuação das pessoas renitentes em querer salvar os haveres, ou do desvio das ajudas pelos autarcas da cor do partido do governo da região de Pedrógão. Mas as sondagens são teimosas e as últimas davam vitória clara ao PS, que terá roubado votos quer ao PSD quer ao BE, com a PCP/CDU a descer e o CDS praticamente estacionado (+0,5%). Depois da “grande vitória” de não ter morrido ninguém neste incêndio, PSD e CDS não sabem o que fazer para atacar o governo, e o escândalo do vereador do BE na câmara de Lisboa que fez pior do que aqueles que sempre criticou, mostrando que o BE não passa de um partido da pequena-burguesia urbana defensor do capitalismo, o Costa deve estar neste momento a esfregar as mãos de contente, tendo para mais beneficiado de uma entrevista em primeira página do jornal do militante nº1 do PSD e da complacência do PR Marcelo que, desta vez, não correu logo ao local do crime para “não atrapalhar”. O importante é que o Orçamento de Estado para 2019 tenha a aprovação garantida, com ou sem mortes na serra.

O PR Marcelo vetou o diploma que dava direito de preferência aos arrendatários, tendo sido assessorado tecnico-juridicamente por Nogueira de Brito, sócio da MLGTS, firma com interesses no sector imobiliário. O rei Rebelo mostra, só com esta atitude, que corre na mesma pista do Costa, defender os interesses dos diversos capitalistas, e não exactamente os pequenos proprietários, que o PCP tanto ama (basta lembrar o apego amoroso aos pequenos proprietários rurais que deixam a floresta ao deus dará), confirmado com a notícia de que 51% dos proprietários do alojamento local na cidade do Porto são empresas ou outras entidades colectivas. Na mesma linha do ainda actual dirigente do dito “principal partido da oposição” que, na festa de verão do partido, não se coibiu de defender que bom para o país é haver (ter havido) “4 ou 5 Alberto João por esse país fora”, quando criticava o “despesismo socrático” e, por extensão, do PS/governo. A direita anda no desnorte, procura uma estratégia que lhe traga o acesso ao pote em breve, daí os ataques ao chefe e ameaça de substituição por alguém mais apto. E mais ainda, um dos seus dirigentes, homem que sempre teve dificuldade em esconder a sua ideologia fascista do tempo da juventude quando militava em organização no-nazi e em ganhar o sustento com trabalho honesto, acaba de sair e, ao que diz, vai criar um novo partido. Assim sendo, à direita, o Costa e o PS podem ficar descansados.

E, em relação à esquerda, o Costa também não tem razões de queixa, apesar do contratempo denominado Robles que afinal é tão especulador como os responsáveis usualmente apontados pela destruição da capital. O acordo PS/BE na capital não parece estar em perigo, Catarina saiu em defesa do correligionário, este não fez nada de ilegal, e o PS veio de imediato deitar água na fervura, terá sido um pequeno incidente, um lapso, que a direita tentou explorar, e basta a direita, partidos e comentadores assoldadados, vir vociferar para a rua é porque é ou falso ou não digno de crédito. Quanto às lutas dos trabalhadores, ao movimento sindical, os professores foram para férias, a Fenprof prometeu mais luta lá para as calendas, quando houver aragem mais fresca, entretanto, o governo aproveitou para acabar com os conselhos de turma e tentar domesticar os professores, proletarizando-os, nos salários e na função, transformando-os em gente cordata e obediente e cuja missão é formar igualmente mais gente acrítica e acéfala, 100% obediente, futuros “colaboradores” do capitalismo, daí nos programas do ensino os conteúdos sejam irrelevantes, a começar pela História e outras ciências sociais, interessa apagar a memória, a favor da metodologia e da forma, transformando as escolas em locais de eventos folclóricos, geridos, de preferência, por funcionários do sistema, os directores, e pela cacicagem partidária local. Derrotar a luta dos professores não deixa de ser de primordial importância para o governo, seja do PS ou do PSD, para servir de exemplo, aos ditos, aos restantes trabalhadores do estado, e fora dele, de que lutar não resulta e que não há alternativa à política do PS/governo que até está, é o que propagandeia, a governar no interesse do povo.

Aparentemente a paz social está garantida, pese alguma escaramuça levantada pelos sindicatos da UGT na enfermagem, com greve marcada para meados do mês de Agosto, para descongelamento dos escalões e/ou para negociação de uma “nova carreira”, paradoxalmente antes da actual funcionar, ou seja, em vez de se impor ao governo a abertura de vagas e concurso para enfermeiro principal, reivindica-se uma “outra carreira”, mais hierarquizada e ao gosto dos chefes/capatazes das administrações, já que em 2010 aquela foi apresentada pelos mesmos sindicatos como a melhor na medida em que institucionalizava o enfermeiro/doutor. Maneiras estranhas de criar perturbação ao governo e ao PS manipulando um sector importante dos trabalhadores do estado. A insatisfação e vontade dos trabalhadores é mais do que muita, apesar das mentiras e manipulações, e não é só a administração pública descontente, os trabalhadores do banco do estado, CGD, preparam greve para o próximo dia 24, pela defesa da carreira e da melhoria do AE, que administração de Paulo Macedo/PS quer destruir alegando que é necessário “aproximar o AE da CGD ao da restante banca, evitando assim uma situação de desvantagem concorrencial”, isto é, continuar a reduzir custos, depois da saída de 418 trabalhadores e de um lucro anunciado para o 1º semestre de 194 milhões de euros; mas parece ser pouco, há que gerir o banco público como privado. É a isto que anda o Costa/PS e o PSD: aumentar a exploração dos trabalhadores e rejuvenescer o capitalismo. É contra uns e outros que os trabalhadores devem encetar uma luta determinada.

O verão vai a mais de meio, os políticos do sistema estão de férias, os dirigentes sindicais idem idem aspas, o mesmo para os corruptos já condenados pela justiça: Armando Vara foi condenado a cinco anos de prisão efectiva, já recorreu todos as instâncias, incluindo o Tribunal Constitucional, mas continua a passar férias; Ricardo Salgado, já foi indiciado, os crimes são diversos, desde falência do grupo BES, tráfico de influências na privatização da EDP, falência fraudulenta da Portugal Telecom, intermediação na compra de submarinos aos alemães, eventuais subornos a Sócrates e Vara, e goza férias longe de Lisboa, goza com a justiça, goza com a cara de todos nós; Álvaro Sobrinho (só para citar três) “perdeu” 144 milhões de rands num escândalo financeiro na África do Sul, dinheiro roubado no BES-Angola, que por sua vez deixou os prejuízos no Novo Banco, através do BES, que se financia no Fundo de Resolução e este financia-se no Orçamento de Estado português, e ainda não está a contas com a justiça. Uma silly season consoante a classe social e as protecções do sistema e do governo.

Até um dia...



Os Bárbaros
12 de Agosto 2018